Friday, 2 October 2015

Sincericídio

A sinceridade, às vezes, nos é necessária como a água de todo dia. Mas, às vezes, ela é desnecessária e absurdamente prepotente. Eu sempre desconfiei das pessoas que dizem que, pra se viver bem, todos deveriam dizer sempre a verdade. Isso não é verdade. Dizer a verdade sempre, sem qualquer pudor ou restrição, é como voltar a ser o que não somos de verdade: animais irracionais. O ser humano não seria humano se não tivesse a opção de avaliar as consequências daquilo que sai da sua boca. E não estou falando de falsidade, de desvios de conduta, de mau-caratismo. Estou falando aquilo que Cazuza já falava: “mentiras sinceras me interessam”.

Numa das cartas que a Clarice Lispector escreveu para as suas irmãs no início dos anos 40 do século passado, ela abordou, certa vez, esse mesmo sentimento do Cazuza. Ela dizia ter chegado de Paris em Berna, ainda com os caixotes todos fechados com a sua mudança do Brasil e, após a euforia dos últimos dias de festa em Paris, recebeu uma carta do Brasil com algumas críticas sobre o seu último livro publicado pouco antes da partida, "Perto do Coração Selvagem". Críticas duras que enterravam (literalmente) o seu livro, o que a fez chorar no meio dos caixotes como um cão sem dono. Em resposta as suas irmãs, ela escreveu algo como: “eu concordo com tudo que ele diz [o crítico], mas também sei que só fala a verdade pra gente aqueles que não gostam da gente, pois aqueles que gostam tentam sempre nos proteger de alguma forma”.

Até hoje, continuo achando isso significativo para aquilo que eu me tornei. A verdade, a qualquer custo, sempre nos torna prepotentes diante da fragilidade dos homens, arrogantes, e sozinhos num canto escuro. Um amigo meu define isso como "sincericídio", ainda ele próprio sendo um adepto dessa prática.

Falar a "verdade" é o certo!, direis... mas a minha questão ainda não respondida é: pra quê? pra quem?

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