Friday, 2 October 2015

Problemas de migração

Conto nos dedos as vezes que entrei num país estrangeiro sem ter a minha bagagem aberta e revistada pelas autoridades de fronteira. Na maior parte das vezes, após passar pelo raio X, o operador dá um sutil sinal ao seu colega para que verifique melhor as minhas tralhas. Certos de que vão encontrar uma bomba ou muita maconha, ficam sempre desiludidos quando não encontram nada.

Certa vez, entrando na Inglaterra, ainda nas operações de migração do Eurotúnel em Bruxelas, na Bélgica, passei quase 15 minutos tentando explicar o que ia fazer em Londres com a minha irmã e uma amiga. Diga-se de passagens, éramos todos pretos e com cara de árabes. Claramente, achou na minha pronúncia macarrônica para “Heathrow” (nome do aeroporto do qual iríamos partir após alguns dias) a motivação para tentar ganhar terreno e, acho eu, humilhar um pouco os bárbaros que éramos, testar seus limites. Lembro que, no final, pedi desculpas por ter pronunciado errado o nome do aeroporto (o que me enoja até hoje!). Mas ele me disse, ao final, algo que me deu compaixão. Após pedir desculpas pela pronúncia, ele respondeu: "não precisa pedir desculpas: eu mal falo inglês!" Bem... no comments...

Indo, certa vez, pra Kalshure na Alemanha, apanhar um avião que nos levaria a Stockholm, saímos da estacão de trem de Strasbourg e os policiais alemães vieram diretamente onde estavam eu e minha amiga Helena. Pediram imediatamente os nossos passaportes. Com o vagão cheio de gente, eles vieram diretamente para mim e Helena. Tivemos vontade de perguntar por que eles não pediam os passaportes dos demais passageiros, mas talvez perdessemos de vez o nosso final de semana na Suécia. Calamos.

Outra vez, ainda quando morava em Strasbourg, esbarrei, sem querer, com uma senhora branca, indiscutivelmente alsaciana-germânica na rua. Automaticamente, coloquei as minhas mãos no seu ombro, como fazemos aqui no Brasil, e pedi desculpas. Ela, imediatamente, reagiu girando o corpo rapidamente e olhando pra mim diretamente: dá pra pedir desculpas sem pôr as suas mãos em mim? Jamais irei esquecer dessa sensação. Como somos todos tristes, nós, humanos!

Mas a pior de todas as situações, vivi na Argentina, país de que gosto muito! Chegando no aeroporto, com minha mochila nas costas, parecendo um bicho grilo moderno, barba grande e cara de terrorista foragido, o policial de fronteira resolveu abrir a minha mala, como de costume. Não satisfeito com a atitude de retirar bolsa por bolsa, ele resolveu cheirar as minhas roupas ali mesmo, no meio de todos, como se fosse um cão de caça e eu, o procurado. Já tinha vivido muito mais coisas complicadas, das quais não preciso nem contar aqui, mas aquilo me deixou muito mal. Talvez porque não imaginasse que nossos hermanos iriam adotar o mesmo comportamento dos “grandes homens”. Talvez porque o policial era preto como eu. Talvez porque eu tivesse retribuído feliz e interessado o seu bom dia, antes dos raios X...

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