Monday, 12 October 2015

Um Deus assim

Deus, pra mim, começa assim: depois de uma noite inteira dançando com amigos, perambulando pelos bares da Lapa, à procura daquilo que não sabemos o que é (e que, com certeza, não é Deus), resolvemos voltar pra casa. Entramos no táxi que voa pelo Aterro do Flamengo. Nesse momento, você olha pro lado direito e se assusta numa quase alucinação: você vê a lua cheia a se pôr às cinco horas da manhã entre os morros. A confusão alcoólica deixa as suas reflexões mais lentas. Mas é essa lentidão que traz a você o tempo necessário de digerir e aceitar o fato. Nesse momento, você percebe que decifrou o grande mistério: não é alucinação! A lua cheia também se põe! Digo afobado ao taxista pra olhar a lua cheia se pondo. Ele, com desdém e sem sequer olhar pro lado, diz apenas “tá bom”. É exatamente nesse momento que Deus surge. Quantas pessoas, além de você, já se deram conta de que a lua cheia se põe? A quantas o foi permitido? Quantas já viram? Quantas já, de fato, entenderam? As ruas vazias, o silêncio, a meia luz de um dia que ainda não começou... Deus arrumou um jeito de que apenas você visse a lua naquele estado! Claro! Você é o primeiro homem a curar a grande doença, o primeiro a levantar a voz e salvar a humanidade, o primeiro a ressuscitar. O anunciador! Peço ao taxista pra parar na praia mesmo, em frente ao Posto 5. Copacabana ainda dorme naquele domingo madrugada. Ao invés de subir a Sá Ferreira e ir ao meu apartamento, retiro os sapatos e atravesso a pista devagar, não há com o que se preocupar. Piso na areia fofa ainda virgem. Vestido, entro no mar gelado do Rio, sozinho. Somente eu e a lua à minha frente, quase a desaparecer. Naquele momento, outra vez, Deus deixa de existir. Eu sou Deus.

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