Monday, 5 February 2007

p-cetamol (750mg)


E se alguém te falasse sobre limões da existência? Você teria coragem de pedir uma caipirinha? E se outra te dissesse que a vida é oca? Você diria que não? E teria ainda vontade de ir viajar de bicicleta pelo Chile? E se não existisse Chile e o cachorro da vizinha latisse alto, em aramaico? Você acreditaria que Jesus era fiel? E escutaria um funk até o fim num ônibus sobre a linha-vermelha? Você saberia o que é funk? E se ele dissesse que teria vivido com você pra sempre se soubesse a verdade? Você ainda pensaria em voltar a pé? E se você não soubesse nadar? E ainda não soubesse o que significa "tant pis"? Você vomitaria depois de duas horas num barco sem motor? Você reconheceria aquela nota acidentada daquela suíte de Bach? Você acordaria as três da manhã vazio e sem nem ter sonhado? E se não existissem os sonhos? Mais que isso, e se nada pudesse ser refeito sobre o leito seco daquele rio? O rio-seco-vermelho-das-margens-alteradas? Você se sentiria perdido no labirinto de vidro do espanhol distante? Ou você se apaixonaria loucamente por Claude Jade e Jean-Pierre Léaud nos filmes do Truffaut? Ou ainda, você tentaria se tornar um colaborador no Líbano? Ou você apenas sentiria a dor de ter perdido? E se não existisse o perdão? E nem a cura? E nem mesmo a volta clara daquele que sempre te foi irmão? Você saberia dizer sim? E depois, você poderia tomar banho frio numa noite de vento forte? Você amaria o vento? Você conseguiria ouvir o sentido escondido de cada palavra na música "Fake plastic trees"? Você cantaria a ópera Carmem, de Bizet, fazendo um bolo de chocolate? E se o chocolate fosse tão amargo a ponto de você perder a noção do que é doce? E começasse a pensar que tudo seria amargo? Você aceitaria aquele beijo? Você saberia deixar alguém te amar livremente? Você teria a força de dizer "eu não preciso"? Você saberia mesmo o que é não precisar? E se a resposta fosse aquela faca aguda? E se ela fosse pronunciada num francês caipira ainda com gosto de Comté na boca? E se você tivesse a coragem de ler "Notre-Dame-des-fleurs", do Jean Genet? Você tocaria mesmo sua mão sobre a carne quente, e dançaria um mambo durante um jantar imbecil? E se nada fosse consistente? E se mesmo a palavra tivesse a capacidade de não se deixar ouvir? E se ele não se deixasse ouvir? E se você chorasse por duas horas seguidas vendo "Le notti di Cabíria" sob uma tela fria de um quarto frio de uma vida fria? Você perderia cinco quilos em apenas cinco dias? Você estaria apto a ouvir o som daquela voz? Você seria você, esse eu que foge dos outros? Você saberia mesmo o que sou eu? E se eu fosse você?

Thursday, 4 January 2007

Sonhos e segredos

Ele disse pra se ter cuidado antes de abrir a porta. Será que ele sabia que eu estava atrás daquela porta? Disse mesmo para eu procurar outra pessoa do nosso sangue. Não fui. Acho que isso é defeito meu, mas não sei procurar alguém à toa. Preciso de algum motivo. E ele sempre teve motivos para sair de casa; os motivos dele. Eu aceitei. Nunca soube direito ouvir o seu violão pausado e cheio de uma alegria sofrida. E toda vez que uma palavra mais forte saia da sua boca, eu era feliz. Mas não era só isso. Um dia eu fiz a viagem mais linda do mundo. Era assim: acordei cedo, arrumei a mochila, e fomos andando em direção a grande montanha. Eu queria saber se era possível subir aquilo que só via de muito longe. Sempre fui fascinado pelo longe... o distante. No meio do caminho teve um amigo. Terminamos a viagem de carro, no topo do mundo. E eu era a pessoa mais feliz do mundo vendo os carros de brinquedo andarem frágeis sob os meus pés. Eu abria os braços e respirava lento. Eu sabia que com um pequeno gesto meu eu esmagaria tudo aquilo que me dava a vida. Ele me olhava apaixonado. Depois resolvemos descer, e foi a primeira vez que eu comi aquela fruta. Um araçá. E eu acho definitivamente que essa fruta pode ser feita de sonhos e segredos. Mas o que eu conto não é segredo. Pois o amor mais puro não pode ser segredo. E nunca vai poder ficar atrás da porta. Ele também soube disso. Eu não o perdi. E talvez não fosse uma coisa qualquer atrás da porta. Nunca. Ele sempre vai estar aqui. E semana passada eu pude lhe beijar de novo, um beijo doce e rápido. O beijo que é a confusão da alma. É quando somos um só. Eu nasci dele. Eu sou ele. Eu sou. Eu... (e já não tinha tempo outra vez: era quinta-feira).

To my father

Monday, 23 October 2006

Before I forget



I gonna go to the travel agency tomorrow. I look for a flight to Paris because I need to walk there again… by underground. I wanna unmask the Paris’s subway, where I could hide me from the world easily and, being a part of it at the same time. I’d like to eat "crèpes" in front of the "George Pompideau" museum, to talk about brazilian soccer with the salesman and, just after, to go to the Sena river for seeing the "Notre Dame" light. A dark light. And again, to drink Bordeaux wine while I feel the rain on face. It's cool, but Paris rain takes a long time to wet. I don't want to visit "Champs-Elysées": it's very boring. But I won't be tired to walk in the "Louvre". Nor even in the "Ile de Paris" slowly. My hotel will be in "Montmartre". Perhaps, I'll find again that younger wearing "havaianas"(flip-flops) and that lost girl in front of the "Place de La Concorde" subway station. I'll invite them to go to the Sena river. Maybe we'll also find a "marché au puce" there. I hope that my subway tickets are useful to more than one time. Cause I have a meeting with my friends, who are living in Europe, in front of the "Bastille". We must rent a bike just to discover Paris in another view. I'll eat "Gauffre au Nutella" on the corner, as a child does. Then, we’ll visit the "Tour Eiffel" monument. Again, I should go upstairs. By feet. I need to confirm which church is that where everybody see it from the first floor. And another time I'll find the chineses upsetting me and offering me wine to drink with them. And how difficult is to take a shower… and wear the heavy coats. And the dark city light. I need to visit again the "Musée d' Orsay" and after, to see a marriage ceremony at the "Petite Palais". I wanna see again the Sena color river and to be scared with a "Bateau Mouche" full of japaneses. I have to buy "Madelaines" at the supermarket just to eat them while I read a book at the "Jardin de Luxembourg" square. And if it’s sunny, I'll lie down on lawn for a little. I don't wanna be in a hurry. I must go down to the "Abesses" to walk distract there. Then, I should find a good "Donner Kebab". Of course, I'll go to the "Gare de l'Est" just to listen again the train announcing that it leaves the station to any destination. I also have to listen children speaking French (much better than me) because I’ll remember the same good feelings when I bought cheap books "au marché". I gonna buy some cheeses, water glasses, CDs, videos… and those "Paris 1900" publicity outdoors.  I'll meet afterwards some friends at a nice "bistrôt" in "Montmartre". And, as always, I must leave Paris at night, underneath of a frozen wind, and a drizzle.

Sunday, 10 September 2006

Um ocidente ao ocidente do ocidente



E sem sentido mesmo deve parecer voltar pra esse país depois de um ano. Ficamos tão confusos... Eu vejo a televisão, saio na rua, leio no jornal. É época de eleição. Que coisa ridícula. É também tão sem sentido o que se diz, o que se faz. As pessoas no meio disso tudo, como eu, sem saber onde essa droga vai parar. Segurando uma faixa na mão durante o dia inteiro no sol quente pra ganhar R$ 50,00 por semana. Cheguei no Rio com medo, quase um estrangeiro. O que me choca em Sergipe não é exatamente o que me choca aqui no Rio. A pobreza do nordeste ainda é pura. Aqui ela é nojenta. Sei bem que não existe pobreza melhor que outra, mas posso livremente relativiza-la. Por que não? Passei um ano sem medo de andar na rua. Passei um ano sem ouvir um tiroteio. Moro em Copacabana e, apesar de ter a chance de não morar numa favela, escuto todos os tiroteios do Pavão-pavãozinho. E sempre que ouço um tiro penso em quem terá pagado com a vida – e mais uma vez – essa droga de país. A gente é muito pouco exigente. Muito débil. A primeira vez que tive consciência da nossa pobreza nojenta foi quando escutei de uma sergipana como eu e "super politizada" que se ela encontrasse um celular na rua ela não iria devolve-lo ao dono. Pois "aqui no Rio é assim". Fui pegar os documentos de um carro que estava por acaso no meu nome no departamento de trânsito de Sergipe. Depois de uma semana inteira perdida de idas e vindas na procura de mais formulários e burocracias, acabamos sendo informados de que eu não poderia ser dono do carro. Na mesma semana descobrimos que se pagássemos a mesma quantia que aquele moleque ganha pra segurar aquela faixa de propaganda política na rua, eu poderia ser dono do carro. Uma vez um amigo disse-me que tinha vergonha de dizer que era brasileiro. Eu não tenho. O que eu tenho mesmo é pena. Será que um dia irá adiantar muito dizer que eu e você somos diferentes da maioria?  Sim, pois se você me lê agora, é porque, no mínimo você tem o que comer quando sentir fome. Mais que isso, você deve mesmo ter acesso a varias coisas e saber exatamente de onde surgiu o Brasil. A Europa no declínio do sistema feudal, superpopulação, fome, miséria, e a solução mais apropriada: conquistar novas terras mundo afora. Solução também pra igreja católica em decadência. Promessa de riqueza. Ao contrario da América do Norte, nossa colonização foi exclusivamente exploratória. Nada de vontade de construir um novo país, um país pra se viver. Até hoje carregamos isso conosco. A herança de sermos todos católicos. E pobres, miseráveis, sem teto, sem nada. Como me disse um outro amigo que hoje mora em Portugal, o incômodo de se andar no seu próprio país e se sentir um estrangeiro. E quem ainda não assistiu ao filme "Amarelo manga"? Nós somos aquilo. Como a "loiraça" amarela "boazuda" que vende no bar, vamos sempre ter um grito alto, difícil de compreender, ininteligível mesmo pra nós mesmos, e, como nos sonhos mais pesados, ninguém vai nos ouvir. Estamos sozinhos nessa luta. Eu e você.


Saturday, 2 September 2006

Sergipano-carioca-alsaciano



Bem, esse será meu ultimo texto aqui uma vez que não vejo mais sentido algum escrever sobre "Um preto em Mulhouse". Como disse em algum outro texto, as coisas acabam. Pois bem, Mulhouse ficou lá na Alsacea, parada. E é tão engraçada a existência das coisas. A vida secreta das coisas. A minha vida não foi secreta em Mulhouse. E consegui mesmo aprender tantas coisas. Não sei se me tornei pior ou melhor... isso não me interessa tanto. O que sei é que quem sou hoje me faz bem. Antes de partir, fizeram uma festa de despedida pra mim e entre outras coisas, resolveram fazer varias brincadeiras comigo pra ver se eu tinha aprendido a "ser alsaciano". Achei engraçado. E acabei descobrindo, de olhos vendados e pelo sabor, qual a água de Mulhouse no meio de outras quatro, e ainda reconheci corretamente três vinhos alsacianos (pinot gris, riesling e gewurtz) e um basco. A tarefa mais fácil foi reconhecer pelo gosto três tipos de queijo: cammembert, munster e brie. A mais difícil, escolher todos os ingredientes prováveis do Kougloupf e fazê-lo ali mesmo no meio da festa. E, tratando-se de quem eram os meus amigos, isso foi até as ultimas conseqüências: colocamos o resultado do teste no forno e ainda comemos. Coisa horrível! Acabei acertando todos os itens, menos esse. Nem eu mesmo sabia sobre o que eu conhecia. E fiquei assustado. E tão comovido com as coisas que escutei de cada um; eu sou cada um deles. Hoje desconfio um pouco das pessoas que vem me falar da frieza dos franceses. Porque seria igualmente preciso conhecer a fundo o Brasil pra deixar de falar de mulata sambando no Rio de Janeiro. Eu vivi aquela terra de uma outra forma. Na verdade, eu acho que estive aberto às pessoas. Queria aprender, queria sentir os gostos, o céu, o frio... tentei falar perfeitamente a língua deles, coloquei baguette debaixo do braço, dispensei o guarda-chuva, comi queijo como sobremesa... e passei mesmo a mão em cada arvore, em cada pedra. Respeitei até o ultimo momento o seu modo de ser. Até fiquei quatro dias sem tomar banho! Só pra poder chegar aqui e dizer (saber) que existe um outro mundo. Um velho mundo, apaixonante, chamado França. E eu agora sou um sergipano-carioca-alsaciano, preto no verão e amarelo no inverno.


Friday, 18 August 2006

Nine out of ten movie stars make me cry



Todo mundo sabe que as coisas começam. E terminam. E tem também o meio de tudo. Mas o começo de tudo é sempre complicado, desorganizado e desconhecido. O começo mais comovente que eu já vi foi num filme do Gregg Araki chamado "Misterious skin". Você se senta na cadeira e a imagem começa a aparecer levemente na tela, mas é impossível se identificar qualquer coisa. Algo meio fora do foco, difícil, angustiante pra quem acaba de entrar no cinema depois de ter reconhecido, na entrada do cinema, os mesmos espectadores de todos os últimos filmes. Depois de muito tempo, talvez alguns vinte segundos, você se dá conta de que algo se move, de cima pra baixo, mas ainda é impossível identificar uma imagem real. Porque ela é filmada de muito perto. Sim, é isso. O inicio de "Exils" é também super excitante. Na verdade o filme inteiro – puro sexo. Em "Billy Elliot", quando o personagem salta (dança?) numa cama elástica ao som de uma vitrola, pra mim é o signo real daquilo que todo mundo chama de liberdade. Infelizmente, ou felizmente, a primeira vez que vi esse filme foi em casa. Se fosse no cinema, com certeza eu seria outra pessoa hoje. Quando vi "Va, vis et deviens" no cinema, a primeira cena foi uma pancada. Uma cena longa sem quase nenhum diálogo, mas que te fala sobre todas as historias de todas as vidas. Duro, seco, forte, corajoso... eu só chorava. Em compensação nunca gosto muito dos fins. O único de que gostei muito depois de um ano de cinema intensivo aqui foi o de "Respiro". Aquela dança de pés flutuando dentro d'água ao som daquela musica incrível, alto mar. Às vezes eu tenho tanta alegria de saber nadar. Mas tem também o meio. Em "C.r.a.z.y", vi uma cena muito reveladora. Uma briga onde todo mundo se bate no meio de um jantar de Natal em família. A cena é dada quadro a quadro ao som de uma musica genial. Não lembro direito, mas acho que era uma opera. No entanto, o filme completo de que mais gostei aqui foi aquele. Ele acaba de saber que a mulher mais bonita do festival, apesar de ter se insinuado pra ele, não esta a fim de uma relação. Ou seja, um fora enorme. Mas, como num filme, durante uma apresentação de rock ao som de "Wonderwall" do Oasis, ele percebe de repente que outra mulher super linda e misteriosa olha pra ele. Ele sorri, ela também, e os dois cantam juntos a mesma musica sem desviar o olhar: there are many things that I would like to say to you, I don't know how... e a própria letra da musica fica sendo o primeiro dialogo entre eles. Durante o filme, ele vai se deitar no tobogã das crianças, meio pensativo, e ao invés de ver o filme, ele se da conta de que as constelações que aparecem no hemisfério norte são completamente diferentes das do hemisfério sul. Coisa inútil. De repente, a mulher misteriosa vai sentar do seu lado e eles começam um dialogo "de trem" como em "Eternal sunshine of the spotless mind". Ela diz mesmo que sabe que vai casar-se com ele. E ele sabe que não é verdade, assim como ela, e por isso mesmo os dois vão dançar uma antiga valsa francesa, sob um céu de estrelas estranhas, sentindo o quase frio do verão francês. O filme termina com os dois caminhando, ainda ao som da valsa, numa direção desconhecida.