Saturday, 2 September 2006

Sergipano-carioca-alsaciano



Bem, esse será meu ultimo texto aqui uma vez que não vejo mais sentido algum escrever sobre "Um preto em Mulhouse". Como disse em algum outro texto, as coisas acabam. Pois bem, Mulhouse ficou lá na Alsacea, parada. E é tão engraçada a existência das coisas. A vida secreta das coisas. A minha vida não foi secreta em Mulhouse. E consegui mesmo aprender tantas coisas. Não sei se me tornei pior ou melhor... isso não me interessa tanto. O que sei é que quem sou hoje me faz bem. Antes de partir, fizeram uma festa de despedida pra mim e entre outras coisas, resolveram fazer varias brincadeiras comigo pra ver se eu tinha aprendido a "ser alsaciano". Achei engraçado. E acabei descobrindo, de olhos vendados e pelo sabor, qual a água de Mulhouse no meio de outras quatro, e ainda reconheci corretamente três vinhos alsacianos (pinot gris, riesling e gewurtz) e um basco. A tarefa mais fácil foi reconhecer pelo gosto três tipos de queijo: cammembert, munster e brie. A mais difícil, escolher todos os ingredientes prováveis do Kougloupf e fazê-lo ali mesmo no meio da festa. E, tratando-se de quem eram os meus amigos, isso foi até as ultimas conseqüências: colocamos o resultado do teste no forno e ainda comemos. Coisa horrível! Acabei acertando todos os itens, menos esse. Nem eu mesmo sabia sobre o que eu conhecia. E fiquei assustado. E tão comovido com as coisas que escutei de cada um; eu sou cada um deles. Hoje desconfio um pouco das pessoas que vem me falar da frieza dos franceses. Porque seria igualmente preciso conhecer a fundo o Brasil pra deixar de falar de mulata sambando no Rio de Janeiro. Eu vivi aquela terra de uma outra forma. Na verdade, eu acho que estive aberto às pessoas. Queria aprender, queria sentir os gostos, o céu, o frio... tentei falar perfeitamente a língua deles, coloquei baguette debaixo do braço, dispensei o guarda-chuva, comi queijo como sobremesa... e passei mesmo a mão em cada arvore, em cada pedra. Respeitei até o ultimo momento o seu modo de ser. Até fiquei quatro dias sem tomar banho! Só pra poder chegar aqui e dizer (saber) que existe um outro mundo. Um velho mundo, apaixonante, chamado França. E eu agora sou um sergipano-carioca-alsaciano, preto no verão e amarelo no inverno.


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