Bem, esse será
meu ultimo texto aqui uma vez que não vejo mais sentido algum escrever sobre
"Um preto em Mulhouse". Como disse em algum outro texto, as coisas
acabam. Pois bem, Mulhouse ficou lá na Alsacea, parada. E é tão engraçada a
existência das coisas. A vida secreta das coisas. A minha vida não foi secreta
em Mulhouse. E consegui mesmo aprender tantas coisas. Não sei se me tornei pior
ou melhor... isso não me interessa tanto. O que sei é que quem sou hoje me faz
bem. Antes de partir, fizeram uma festa de despedida pra mim e entre outras
coisas, resolveram fazer varias brincadeiras comigo pra ver se eu tinha
aprendido a "ser alsaciano". Achei engraçado. E acabei descobrindo,
de olhos vendados e pelo sabor, qual a água de Mulhouse no meio de outras
quatro, e ainda reconheci corretamente três vinhos alsacianos (pinot gris,
riesling e gewurtz) e um basco. A tarefa mais fácil foi reconhecer pelo gosto
três tipos de queijo: cammembert, munster e brie. A mais difícil, escolher
todos os ingredientes prováveis do Kougloupf e fazê-lo ali mesmo no meio da
festa. E, tratando-se de quem eram os meus amigos, isso foi até as ultimas
conseqüências: colocamos o resultado do teste no forno e ainda comemos. Coisa
horrível! Acabei acertando todos os itens, menos esse. Nem eu mesmo sabia sobre
o que eu conhecia. E fiquei assustado. E tão comovido com as coisas que escutei
de cada um; eu sou cada um deles. Hoje desconfio um pouco das pessoas que vem
me falar da frieza dos franceses. Porque seria igualmente preciso conhecer a
fundo o Brasil pra deixar de falar de mulata sambando no Rio de Janeiro. Eu
vivi aquela terra de uma outra forma. Na verdade, eu acho que estive aberto às
pessoas. Queria aprender, queria sentir os gostos, o céu, o frio... tentei
falar perfeitamente a língua deles, coloquei baguette debaixo do braço,
dispensei o guarda-chuva, comi queijo como sobremesa... e passei mesmo a mão em
cada arvore, em cada pedra. Respeitei até o ultimo momento o seu modo de ser.
Até fiquei quatro dias sem tomar banho! Só pra poder chegar aqui e dizer
(saber) que existe um outro mundo. Um velho mundo, apaixonante, chamado França.
E eu agora sou um sergipano-carioca-alsaciano, preto no verão e amarelo no
inverno.
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