Sunday, 10 September 2006

Um ocidente ao ocidente do ocidente



E sem sentido mesmo deve parecer voltar pra esse país depois de um ano. Ficamos tão confusos... Eu vejo a televisão, saio na rua, leio no jornal. É época de eleição. Que coisa ridícula. É também tão sem sentido o que se diz, o que se faz. As pessoas no meio disso tudo, como eu, sem saber onde essa droga vai parar. Segurando uma faixa na mão durante o dia inteiro no sol quente pra ganhar R$ 50,00 por semana. Cheguei no Rio com medo, quase um estrangeiro. O que me choca em Sergipe não é exatamente o que me choca aqui no Rio. A pobreza do nordeste ainda é pura. Aqui ela é nojenta. Sei bem que não existe pobreza melhor que outra, mas posso livremente relativiza-la. Por que não? Passei um ano sem medo de andar na rua. Passei um ano sem ouvir um tiroteio. Moro em Copacabana e, apesar de ter a chance de não morar numa favela, escuto todos os tiroteios do Pavão-pavãozinho. E sempre que ouço um tiro penso em quem terá pagado com a vida – e mais uma vez – essa droga de país. A gente é muito pouco exigente. Muito débil. A primeira vez que tive consciência da nossa pobreza nojenta foi quando escutei de uma sergipana como eu e "super politizada" que se ela encontrasse um celular na rua ela não iria devolve-lo ao dono. Pois "aqui no Rio é assim". Fui pegar os documentos de um carro que estava por acaso no meu nome no departamento de trânsito de Sergipe. Depois de uma semana inteira perdida de idas e vindas na procura de mais formulários e burocracias, acabamos sendo informados de que eu não poderia ser dono do carro. Na mesma semana descobrimos que se pagássemos a mesma quantia que aquele moleque ganha pra segurar aquela faixa de propaganda política na rua, eu poderia ser dono do carro. Uma vez um amigo disse-me que tinha vergonha de dizer que era brasileiro. Eu não tenho. O que eu tenho mesmo é pena. Será que um dia irá adiantar muito dizer que eu e você somos diferentes da maioria?  Sim, pois se você me lê agora, é porque, no mínimo você tem o que comer quando sentir fome. Mais que isso, você deve mesmo ter acesso a varias coisas e saber exatamente de onde surgiu o Brasil. A Europa no declínio do sistema feudal, superpopulação, fome, miséria, e a solução mais apropriada: conquistar novas terras mundo afora. Solução também pra igreja católica em decadência. Promessa de riqueza. Ao contrario da América do Norte, nossa colonização foi exclusivamente exploratória. Nada de vontade de construir um novo país, um país pra se viver. Até hoje carregamos isso conosco. A herança de sermos todos católicos. E pobres, miseráveis, sem teto, sem nada. Como me disse um outro amigo que hoje mora em Portugal, o incômodo de se andar no seu próprio país e se sentir um estrangeiro. E quem ainda não assistiu ao filme "Amarelo manga"? Nós somos aquilo. Como a "loiraça" amarela "boazuda" que vende no bar, vamos sempre ter um grito alto, difícil de compreender, ininteligível mesmo pra nós mesmos, e, como nos sonhos mais pesados, ninguém vai nos ouvir. Estamos sozinhos nessa luta. Eu e você.


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