E sem sentido mesmo deve parecer voltar pra esse país depois
de um ano. Ficamos tão confusos... Eu vejo a televisão, saio na rua, leio no
jornal. É época de eleição. Que coisa ridícula. É também tão sem sentido o que
se diz, o que se faz. As pessoas no meio disso tudo, como eu, sem saber onde
essa droga vai parar. Segurando uma faixa na mão durante o dia inteiro no sol
quente pra ganhar R$ 50,00 por semana. Cheguei no Rio com medo, quase um
estrangeiro. O que me choca em Sergipe não é exatamente o que me choca aqui no
Rio. A pobreza do nordeste ainda é pura. Aqui ela é nojenta. Sei bem que não
existe pobreza melhor que outra, mas posso livremente relativiza-la. Por que
não? Passei um ano sem medo de andar na rua. Passei um ano sem ouvir um
tiroteio. Moro em Copacabana e, apesar de ter a chance de não morar numa
favela, escuto todos os tiroteios do Pavão-pavãozinho. E sempre que ouço um
tiro penso em quem terá pagado com a vida – e mais uma vez – essa droga de
país. A gente é muito pouco exigente. Muito débil. A primeira vez que tive
consciência da nossa pobreza nojenta foi quando escutei de uma sergipana como
eu e "super politizada" que se ela encontrasse um celular na rua ela
não iria devolve-lo ao dono. Pois "aqui no Rio é assim". Fui pegar os
documentos de um carro que estava por acaso no meu nome no departamento de
trânsito de Sergipe. Depois de uma semana inteira perdida de idas e vindas na
procura de mais formulários e burocracias, acabamos sendo informados de que eu
não poderia ser dono do carro. Na mesma semana descobrimos que se pagássemos a
mesma quantia que aquele moleque ganha pra segurar aquela faixa de propaganda
política na rua, eu poderia ser dono do carro. Uma vez um amigo disse-me que
tinha vergonha de dizer que era brasileiro. Eu não tenho. O que eu tenho mesmo
é pena. Será que um dia irá adiantar muito dizer que eu e você somos diferentes
da maioria? Sim, pois se você me lê
agora, é porque, no mínimo você tem o que comer quando sentir fome. Mais que
isso, você deve mesmo ter acesso a varias coisas e saber exatamente de onde
surgiu o Brasil. A Europa no declínio do sistema feudal, superpopulação, fome,
miséria, e a solução mais apropriada: conquistar novas terras mundo afora.
Solução também pra igreja católica em decadência. Promessa de riqueza. Ao contrario
da América do Norte, nossa colonização foi exclusivamente exploratória. Nada de
vontade de construir um novo país, um país pra se viver. Até hoje carregamos
isso conosco. A herança de sermos todos católicos. E pobres, miseráveis, sem
teto, sem nada. Como me disse um outro amigo que hoje mora em Portugal, o
incômodo de se andar no seu próprio país e se sentir um estrangeiro. E quem
ainda não assistiu ao filme "Amarelo manga"? Nós somos aquilo. Como a
"loiraça" amarela "boazuda" que vende no bar, vamos sempre
ter um grito alto, difícil de compreender, ininteligível mesmo pra nós mesmos,
e, como nos sonhos mais pesados, ninguém vai nos ouvir. Estamos sozinhos nessa
luta. Eu e você.
No comments:
Post a Comment