Outro
dia, entrando no Banco do Brasil da universidade, acabei sendo protagonista de
uma cena curiosa. Deixei o meu celular e meu molho de chaves na caixa para
poder passar no detector de metais. Tive que esperar um pouco, pois um rapaz da
minha idade estava também colocando o seu celular e também o seu molho de
chaves. Como estava com o computador na bolsa, logicamente, o aparelho emitiu o
mesmo sinal que emitiria se alguém armado, intencionalmente, estivesse tentando
entrar no banco. A segurança pediu para ver o interior da minha bolsa e eu
atendi ao seu pedido. Depois, achei melhor ir pegar de volta o meu celular e
chaves, antes que algum engraçadinho aproveitasse da situação para me roubar, o
que seria impossível, mas... O fato é que quando voltei, achei apenas o meu
molho de chaves, nada mais dentro da caixa. O rapaz que colocou as suas chaves
e seu celular antes de mim estava saindo do local e, naturalmente, eu disse:
ei, rapaz, meu celular! Não que eu tivesse certeza que ele era o responsável
pelo desaparecimento do meu celular, mas achei que algo nele me dava a
liberdade de falar assim. Ele, de forma assustadora e incrível, se virou,
retirou o meu celular do bolso dele e recolocou-o dentro da caixinha na porta
de entrada do banco. Como a segurança estava do lado eu lhe disse: você não vai
fazer nada? E ela me respondeu: fazer o quê? Eu respondi: se você não sabe o
que fazer, o que você espera que eu faça? Você acha que eu vou entrar na fila
do caixa do lado de uma pessoa que acaba de roubar meu celular? Bem, o fato é
que eu entrei no banco e enfrentei a tal fila do lado do cara que acabara de
roubar meu celular. Ele fingia que não me reconhecia. Eu, por minha vez, fingia
que nunca o tinha visto. E essa é a visão mais real desse nosso país.
Tuesday, 10 May 2011
Monday, 2 May 2011
Universo
Dar aula de termodinâmica não é tão simples assim para uma alma qualquer. A cada nova lei você se sente mais e mais inanimado. Quase um desenho escrito a lápis no caderno, distraidamente. No meio de um turbilhão de processos. Todos tendendo ao equilíbrio utópico. Na direção do caos energético, que acaba por se refletir nas nossas decisões cotidianas. Aliás, o caos... ele, que parece ser o destino maior de cada ser vivo. E daquilo que chamamos, sem vergonha, de universo.
Friday, 29 April 2011
A travessia...
Quem olha essas paisagens não chega nem a imaginar o que passamos nessa travessia dos Andes. Para sair do Chile e entrar na Argentina temos que descer do ônibus e fazer as operações de fronteira. Mas tem um detalhe: estamos numa altura onde as poças d’água já estão congeladas e a Aduana é aberta, no meio dos Andes. Não estávamos vestidos adequadamente e passamos quase 1h30 numa situação de emergência que só não era pior porque a gente ria tanto da nossa própria desgraça que acabava por aquecer o corpo todo. Ai que vida!
Wednesday, 27 April 2011
Santiago II
Bem,
a Cris inventou que deveríamos ir num bar que é conhecido em Santiago como café
com pernas, onde as mulheres servem café de minissaia. Mas isso não era tudo.
Ela disse mesmo que a gente precisava ir num café onde as garçonetes servem
café de calcinha e sutiã. Sim. E lá fomos nós atrás desse café. Quando
perguntamos ao moço na rua onde ficava, senti algo estranho na resposta do
moço. Tal como: vocês têm certeza que querem ir pra lá. Bem, chegamos ao café,
abrimos a porta decididos e entramos. Logo na chegada, uma moça em pé, com a
luz neon a tornar sua bunda nua algo irreal, e outras duas moças de calcinha e
sutiã a vir nos servir. Perguntaram o que queríamos e quando respondemos, logo
uma foi apanhar a encomenda e outra sentou ao meu lado em cima do balcão numa
pose meio Nelson Rodrigues. Eu fiquei tão sem jeito e tão vermelho que fosse eu
branco e toda a sala estaria escarlate. A Cris percebeu logo a minha pouca
desenvoltura e logo começou a dialogar com as moças. Eu passei o resto do tempo
embasbacado, achando que elas eram feitas de pano. Depois do café, saímos
apressados e fomos andar até o mercado central de Santiago, onde comemos uma
Paila de mariscos do pacifico.
Santiago I
Santiago
esperava por nós muito mais do que nós esperávamos por Santiago. Primeiro que
1,00 real equivale a 260,00 pesos chilenos. Ou seja, uma mera corrida de taxi
do aeroporto para o hotel pode custar algo em torno de 12 mil pesos chilenos.
Isso deixa qualquer um em estado de choque... essas almas salariadas-pós-plano-real.
Então, a pergunta mais importante em frente ao caixa eletrônico do aeroporto
era: quantos mil pesos retirar de uma continha que não tem nada de milionária?
Bem, no final, tudo se resolveu, mas é preciso deixar claro que era muito
difícil dividir todos os preços por 260 (de cabeça) e toda hora. O mais
importante era saber dividir até comprar a primeira taça de vinho. Depois, o
cérebro parava de funcionar e tudo ficava mais fácil. A cada minuto os nossos
10.000,00 pesos valiam uma quantia diferente em reais. Mas, como eu disse, a
cidade estava preparada para nos receber e, ao contrário dos argentinos (e
vários brasileiros), os chilenos estavam sempre dispostos a explicar as coisas
e te devolver o troco correto no meio da confusão de uma cidade grande, e da
nossa própria confusão. Os chilenos são feios, e são tão bacanas e ingênuos
como só os feios podem ser. Aliás, a maior doçura dos chilenos é ter um sotaque
impossível de se compreender, mesmo quando estão nos explicando as coisas. Os
Andes se impõem nas paisagens e parecem os pais daquela cidade feliz.
Provavelmente são eles que determinam os limites daquelas pessoas. E os nossos
também. Precisamos estar novamente em Santiago, e urgentemente.
Sunday, 20 February 2011
No fundo de Amsterdam
Amsterdam para mim foi o começo do fim do mundo. Aquele mundo anunciado tantas vezes. E sem que eu percebesse a altura. Amsterdam foi um dom, o anuncio de algo melhor, um jeito de receber mensagens de outros mundos, talvez já destruídos, ou reconstruídos. Não sei. Amsterdam pra mim foi um susto. O susto que apenas uma cidade abaixo do nível de tudo pode dar em alguém. Alguém que já conhecia sua história, mas que jamais tinha provado do seu néctar. Fruto impuro. Bolo de chocolate com sabor de espaços... vazios.
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