Chegou então o dia em que eu bebi tanto, mais tanto, tanto, que resolvi não
empurrar a bicicleta pra voltar pra casa. Estava ótimo! E achava mesmo que
poderia ir pedalando pelos trilhos do tramway, até porque às 4h00 da manhã os
trens ainda não circulam na cidade. E foi isso que fiz, até me distrair e o
pneu da bicicleta entrar na raia do trilho. Parecia coisa de filme. Uma queda
com direito a efeitos especiais e tudo! Dei umas duas piruetas no ar antes de me
estatelar no chão feito uma jaca mole. E sorte a minha que eu tava de luva e
com um casaco tão grosso que, mesmo que eu quisesse, não teria como me machucar
tão gravemente. Mas a luva se rasgou toda. O barulho da queda ecoou pelas ruas
vazias, onde somente um casal voltava pra casa, talvez ainda pior do que eu. Fui
logo tratando de levantar a bicicleta. O problema é que estava num sinal de trânsito
e, parado do meu lado, nada menos que o carro do corpo de bombeiros. A mulher
que dirigia perguntou se eu estava bem e eu respondi apressado que sim. Queria
sair dali de qualquer jeito. Imaginem quantas historias já escutei aqui de
pessoas bêbadas de bicicleta na rua que são paradas pela policia, e tem que
responder por isso. Aqui também é crime beber e pedalar na rua meus amigos! Mas
como eu ainda estava balançando e eles tinham tempo, um dos bombeiros desceu e
veio me dar o maior carão que eu já levei. Pense! Porque eu não tinha o direito
de andar pela linha de trem, porque eu não podia beber e andar de bicicleta,
porque assim, porque assado... sim senhor, posso ir embora? E fui saindo
devagar. Mas na primeira pedalada, como a corrente da bicicleta tinha
enganchado no meio da roda, ainda tomei outro tombo. Pra ainda ouvir um: você
ainda vai insistir em ir pedalando mocinho? Putz, um frio da desgraça e ainda
ter que andar meia hora a pé... mas fazer o quê?
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