Desde o primeiro dia, ele sempre
teve inveja de mim. Eu era magro, saudável e tinha um sorriso do lado esquerdo.
Ao contrario de mim, ele não sabia o que fazer com todo aquele corpo que deus
lhe dera. E as calças encomendadas na costureira da esquina só lhe faziam me
odiar cada dia mais e mais. Desde o primeiro dia em que nos cruzamos, pude
sentir a espuma amarela que escondia da sua boca e que ele escondia atrás do
lenço branquíssimo. Quando ele me pedia algo, tudo vinha como uma agressão; uma
defesa adquirida ao longo de anos de sofrimento. E quando eu recusava o sorvete
que ele me oferecia, e que aguardava comodamente o fim do outro na sua mão direita,
ele era possuído pela mais terrível das aflições que um ser vivo pode sofrer; como
outro ser vivo poderia recusar algo desse tipo? Desde cedo ele ouvira no
colégio as mais amargas frases de terror. Seu nome era confundido de propósito
com ofensas distraídas, as mais ferozes. Rolha de poço, bago de jaca, baleia,
jaburu, botijão de gás, bolo fofo, barriga de verme, vaca atolada, tonelada.
Tudo sutilmente dispensado na hora do lanche quando a sua merenda transbordava
suja por toda a carteira. Nada nele podia ser espontâneo. Ele soube desde cedo
qual resposta usar a cada nova agressão. E mesmo que a gente se aproximasse
cada vez mais e mais de sua vida gorda e cheia de doçuras, não estaríamos nunca
livres do seu agressivo amor.
Nota: por muito tempo me senti
incomodado quando pensava em colocar esse texto aqui. Porque sei que numa
primeira leitura muita gente poderia se sentir ofendida. Mas, na verdade, esse
texto nunca foi uma ofensa. Sempre foi uma tentativa de aproximação, e muito
carinhosa, aliás.
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