Friday, 20 February 2009

Molodoï I


Morre o primeiro que disser que aqui em Strasbourg existe muita coisa pra se fazer a noite. Pois é, e foi também por isso que aprendi a ir ao Molodoï quase semanalmente durante um tempo. A primeira vez, me assustei com um festival de musica eletrônica chamado Canibal Caniche. Caras bizarras, muito preto, pessoas simpáticas; na entrada já ganhei uma taça de vinho quando souberam que eu era brasileiro. Eu gosto tanto de ser brasileiro! E vou confessar que nunca vi um festival tão bom! Foram os dois primeiros dias que voltei pra casa as 5h00 da manhã aqui. Antes de continuar, preciso explicar duas coisas. Primeiro: eu sempre gostei do jeito meio torto e livre de se dançar música eletrônica. É uma desordem de dança que me atrai. E entre os bits mais impossíveis, existe também uma simetria no jeito de se mexer que me deixa meio out of. E eu gosto imediatamente de estar out of. Na verdade, acho que sempre vivi out of. Pra piorar ainda mais a situação, no dia da ciência (um dia onde todos os pesquisadores franceses são convidados a vulgarizar a ciência e mostrá-la mais facilmente ao público), assisti uma conferência de um matemático teórico que trabalha com música eletrônica. Nos intervalos da palestra, o auditório da Universidade Louis Pasteur virava uma pista de dança, com as músicas do próprio professor. Fiquei enlouquecido com aquilo, porque começava a compreender mais aquela música. Então é isso. A segunda coisa que quero dizer é que, do mesmo modo, eu também gosto de pessoas diferentes. Pessoas que gostam do que eu não gosto. Fico sempre tentando captar o que existe nessas pessoas que os faz tão diferentes de mim. Lembro que outro dia no Instituto, vivi uma cena tão engraçada. É que resolvi de novo colocar no braço, e desde que sai do Rio, uma pulseirinha de palha meio hippie que comprei naqueles peruanos que vendem em Ipanema no domingo de tarde. Até já conhecia a fulana, porque sempre que quebrava, ou que eu não gostava do bagulho, voltava dizendo: quebrou e eu quero outro por 2 reais. Ela vendia sorrindo. Aquela quase hippie, como eu próprio, aliais. Então, coloquei a pulseira e fui trabalhar. Estava no microscópio falando com um pesquisador de respeito, super simpático, e que gosta muito de mim, quando percebi que ele começou a se incomodar com alguma coisa. Ele mudou de tom, ficou sério, começou a me tratar friamente. Só então que me dei conta que ele, de vez em quando, olhava pra minha pulseira no braço sem acreditar no que via. Tudo de bom e sério que eu representava para aquele senhor simpático ia por água abaixo. Todo o meu currículo não significava mais nada diante daquela pulseira. Uma desilusão atroz. As horas gastam no café depois do almoço, os sorrisos amigos nos corredores, a atenção em me apresentar a pessoas interessantes, os convites pra ir esquiar com a sua família nos domingos... tudo aquilo ele cobrava de volta agora com seu olhar ferido. Eu fiz de conta que nada entendi. E continuei a lhe sorrir no corredor sempre que nos cruzamos. Quantas misérias se podem guardar numa pulseirinha mixuruca, meu deus! Ah se a peruana soubesse disso! As pessoas são tão bobas! Como eu, aliais. No Molodoï, eu poderia carregar uma melancia e algumas bananas penduradas pela cintura e tenho certeza que ninguém iria se decepcionar comigo. Porque ninguém está ali pra pedir nada. Cabelos azuis, verdes, vermelhos, pretos, espichados, caracolados, lisos, e eu fico tão comovido de estar no meio daquilo tudo. Tenho certeza que ninguém ali seria capaz de correr atrás de um negro sem documentos no meio da rua.

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