Cada átomo se manifesta contrariamente a essa colisão inevitável. Centenas de orbitais antiligantes são povoados. Cada célula responde a essa decisão energética e age imediatamente para minimizar os efeitos. Citocinas incoerentemente disparadas para conter o que eu entendo como calor. Entrelacamento de corpos e corpúsculos, imaginários ou reais, todos perfeitamente adaptáveis ao infinito do universo. E eu... absolutamente consciente de tudo isso. Como se fosse possível.
Friday, 3 February 2012
Tuesday, 10 January 2012
Algo que vem
É que, na verdade, uma revolução vem chegando dentro de
mim, e sem precedentes. A orgia de se ser e de se sentir crescer depois da
chuva pesada dos últimos dias. Eu sou aquele que renasce logo após a primeira
chuva. A promessa ligeira de que algo vai vingar. Ou, simplesmente, a flor
indiscutivelmente amarela de um dente-de-leão sorrindo para o dia. Pronta para
ser esmagada pela primeira criança distraída na saída da escola. A continuação
absurda do mundo.
Eu posso ser aquilo que se arrasta. Aquilo que voa em
sobressaltos na direção da luz, aquilo que se tem gelado e escorregadio nas
mãos, aquilo que se contrai inevitavelmente depois do limão, e que comemos com
prazer horrível durante um almoço entre amigos. E depois de tudo isso, eu posso
ser aquilo que transborda, uma lua cheia surgindo duvidosamente vermelha sobre
o oceano, fogos de artifício explodindo coloridos no primeiro minuto do ano, a
lambida despretensiosa de um cachorro no nosso rosto distraído, ou aquela
palavra esperada há tanto tempo.
Wednesday, 28 December 2011
Atacama
Desde que pisei a primeira vez aqui no Chile, senti como se esse país pudesse me trazer muitas alegrias. E foi mesmo assim desde então. Já na viagem de retorno para o Brasil estava decidido a voltar aqui. E aqui estou, novamente, e voltando a ter alegrias e surpresas cotidianas. Voltando de um passeio hoje a tarde, onde passamos três horas quase adormecidos em águas termais que descem dos Andes abaixo, a senhora dona do nosso hotel nos convidou para ir à sua roça. Nem hesitamos. É preciso antes dizer que, como o seu próprio país, essa senhora de 67 anos guardava algo no seu modo elegante e distinto de falar que me atraiu desde a nossa chegada, assustados, a esse deserto chamado Atacama. Quando ela me contou que era uma atacamenha nascida e criada aqui, achei que algo estivesse errado porque ela me pareceu uma mulher do mundo, culta e com uma visão que observava em poucas pessoas que conheci até hoje. Ao longo dessa semana aqui, fiquei conhecendo e me encantando cada vez mais com essa senhora. Hoje, com o convite para visitar o seu sitio, ela me dizia que estava pronta para nos receber e a gente a ela. Ficamos encantados com tudo, o modo de vida de um atacamenho típico. E vendo essa senhora cuidar das ovelhas, galinhas, plantas, não pude deixar de pensar na minha mãe, que também fazia isso tudo com muito amor. Ela contou que os seus filhos dizem que ela já não precisa se cansar com essas coisas, que precisa descansar e ficar somente com o hotel, mas ela disse que não pode fazer isso porque aquilo tudo é sua vida mais valiosa. Que fica alegre quando uma flor se abre no sitio e triste quando um pintinho morre afogado no bebedouro, como vimos hoje, por causa do calor extremo. Isso tudo eu ouvi várias vezes de minha mãe, que insistia em cuidar de galinhas, verduras, etc, diariamente e com muita alegria - o que nos fazia achar, erradamente, que isso era cansativo demais para ela. No fundo nunca foi. Ao contrário. Era aquilo tudo que lhe fazia viver.
No caminho de volta ela nos contou sobre os vários países que conheceu, e que adorou a Grécia e a Suíça (a Suíça era o país dos seus sonhos). Os filhos a levaram. Fiquei pensando que nós não tivemos essa alegria de poder levar nossa mãe na Suíça, que também era o país dos seus sonhos. Mas ao mesmo tempo, estar ao lado dela me fez tão feliz, como se ela fosse uma parte arrancada de minha mãe no meio do deserto. A Fernanda, entendendo aquilo tudo, começou a chorar. Eu não pude chorar. Por que estava contente demais por aquele presente divino.
No caminho de volta ela nos contou sobre os vários países que conheceu, e que adorou a Grécia e a Suíça (a Suíça era o país dos seus sonhos). Os filhos a levaram. Fiquei pensando que nós não tivemos essa alegria de poder levar nossa mãe na Suíça, que também era o país dos seus sonhos. Mas ao mesmo tempo, estar ao lado dela me fez tão feliz, como se ela fosse uma parte arrancada de minha mãe no meio do deserto. A Fernanda, entendendo aquilo tudo, começou a chorar. Eu não pude chorar. Por que estava contente demais por aquele presente divino.
Thursday, 16 June 2011
Pela internet
E ainda que fosse a completa falta de sonho
aquilo que me guiasse, eu não poderia seguir nada senão aqueles sinais que se
tornam surpreendentemente evidentes entre pessoas que nunca se viram. Mas a mim
foi dada aquela inquietação de alguém que nunca soube da verdade. E por nunca
saber da verdade, eu sempre fiz propagandas enganosas de mim mesmo para os
outros, distraidamente. Ontem eu tive um encontro. Um encontro falso como o de
duas pessoas que se conhecem pela internet e que nunca trocaram mais do que
cinco mil caracteres de informação. A falta de caracteres e de resposta que
corresponda à pergunta certa configuraria imediatamente uma falta de conexão,
como se em algum no momento do download
tivéssemos obtido um 0 no lugar do 1. Seria como se no momento final do filme,
onde aquele gesto justificaria todas as ações passadas, faltasse energia por
três segundos e você ficasse com a notícia reveladora sem a consistência
daquilo que é necessário para se acreditar. E a notícia já não significaria
mais nada para ninguém...
Thursday, 2 June 2011
Pink e Gil
Um
satélite caindo distraído sobre o mundo. O mundo esperando impaciente a queda
de um satélite. Ou seria um satélite caindo impaciente sobre o mundo e o mundo,
por sua vez, distraído, no meio da queda iminente de um satélite. Bem, o fato é
que temos uma cachorra aqui em casa chamada Pink (apesar dela ser preta). E que
temos uma prima chamada Gil (apesar dela ser mesmo a nossa irmã). A Pink tem a
quase distraída mania de esperar que a gente saia para longe das suas vistas
antes de começar a comer sua comida de cachorro. A Gil, por sua vez, tem uma
quase impaciência com essa atitude da Pink de esperar que ela saia para só
então comer. E, claro que todos aqui em casa já se demoraram mais na frente da
Pink esperando que ela comesse a comida, enquanto ela permanecia imóvel nos
observando (tanto quanto nós a observávamos). Então, um dia, impacientemente,
Gil decidiu puxar uma cadeira e sentar bem em frente a Pink, olho no olho - só
sairia da frente dela quando a outra começasse a comer!
- Eu quero ver se a ela vai morrer de fome hoje,
porque eu tenho a tarde inteira sem ter o que fazer, dizia distraidamente nossa
prima Gil, enquanto nossa Pink olhava impacientemente para ela.
Friday, 20 May 2011
Batatinha, tomate, etc...
Hoje eu vou fazer uma tartiflete aqui em casa.
Apesar do nome, isso é uma comidinha básica francesa que leva batata, bacon e
queijo. Ou seja, uma bomba que vai servir para esquentar um pouco o dia de hoje
nessa terra. E nem adianta rir: essa semana promete ser a semana mais fria do
ano em Sergipe, e isso já se anuncia hoje com esses siberianos 17°C! Fazer o
quê? Tem neguinho acendendo o fogão a lenha o dia inteiro em Riachão do Dantas,
se vestindo com bolsas plásticas, etc, tudo pra ver se espanta o frio que
resolveu testar os sergipanos esses dias! Mas ai, voltando ao assunto original,
você sabia que a batatinha só chegou à Europa no século XIX? E o tomate também?
Fiquei besta quando soube. Porque quando eu imagino a mesa da Europa de hoje
sem a batatinha e o tomate, acaba me dando até um certo horror de pensar o que
se comia antes! Por isso que nem caramujo escapava, meu filho! O tomate e a
batatinha foram levados daqui da América. E mais: sabia que até o Renascimento
as pessoas que eram convidadas para festas deveriam levar no bolso seu
estojinho com colher, garfo e faca? Sim, cada um tinha o seu. E que bem antes
disso, a inexistência de pratos criava uma situação bizarra. Tipo, as pessoas
comiam num prato feito de pão super hiper mega plus plus duro. E ao final da
refeição, doavam esse pão molhadinho pros vassalos. Idade média. Engraçado...
lembro que uma vez eu vi num jornal de Strasbourg um anuncio de um restaurante
que oferecia um menu Idade Média. Na época, nem me interessei mais pelo
assunto, e acabei perdendo a oportunidade de descobrir gostos bizarros! Mas o
fato é que a comida de hoje aqui em casa não tem nada de Idade Média e é,
talvez, bem mais americana do que francesa. Ninguém vai precisar trazer seus
talheres também, o que já insere a gente no Renascimento. A única coisa Idade
Média que existe hoje aqui ainda é o apetite de todo mundo!
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