É que, na verdade, uma revolução vem chegando dentro de
mim, e sem precedentes. A orgia de se ser e de se sentir crescer depois da
chuva pesada dos últimos dias. Eu sou aquele que renasce logo após a primeira
chuva. A promessa ligeira de que algo vai vingar. Ou, simplesmente, a flor
indiscutivelmente amarela de um dente-de-leão sorrindo para o dia. Pronta para
ser esmagada pela primeira criança distraída na saída da escola. A continuação
absurda do mundo.
Eu posso ser aquilo que se arrasta. Aquilo que voa em
sobressaltos na direção da luz, aquilo que se tem gelado e escorregadio nas
mãos, aquilo que se contrai inevitavelmente depois do limão, e que comemos com
prazer horrível durante um almoço entre amigos. E depois de tudo isso, eu posso
ser aquilo que transborda, uma lua cheia surgindo duvidosamente vermelha sobre
o oceano, fogos de artifício explodindo coloridos no primeiro minuto do ano, a
lambida despretensiosa de um cachorro no nosso rosto distraído, ou aquela
palavra esperada há tanto tempo.
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