Friday, 10 May 2013
O medo do mundo
Diante de tantas discussões ultimamente (estado laico, fobias, sins, nãos, etc...), fico sempre pensando que a resposta é tão mais simples que isso tudo...
Sunday, 2 December 2012
Nova Iorque
A minha visão da America até agora é de um lugar bonito e
absurdo. Não sei exatamente onde eu li a definição de que tudo que é bonito é
absurdo. Aqui isso é mais evidente do que em qualquer lugar que eu já enfrentei
o que é belo. Tudo aqui foi feito pra ilustrar a capa de uma revista ou a
abertura de um filme. Tudo é real, mas artificial. A parte isso, eu também
adoro viver dentro desse sonho absurdo que é a vida americana. Mas quero estar
consciente sempre de que existem outros mundos além desses. Para poder lutar. Eu quero fazer
parte de todos eles!
Wednesday, 28 November 2012
O incomodo de um museu
Eu não gosto de ir a museus. Primeiro porque fico constrangido de exercer a minha impaciência habitual de ver somente aquilo que me interessa e ir embora deixando pra trás várias galerias sem serem visitadas. Segundo porque eu fico puto com o pessoal que pára na frente das obras e fica olhando, ou lendo, sem ter noção de que outras pessoas estão querendo fazer o mesmo. Eu só vou visitar um museu tranquilamente quando eu tiver dinheiro pra fechá-lo exclusivamente para a minha visita, igual esses artistas de Hollywood fazem! Tá pensando que a pessoa aqui é moleza, é? Talvez por isso é que o meu museu preferido até hoje é o Musée d’Orsay. Então, estou falando isso tudo porque aqui em Nova Iorque, esse meu constrangimento chegou ao ponto de me gerar um conflito interno difícil de gerir. A pergunta simples era: como você vai ao Metropolitan Museum e vê somente a ala do Egito antigo, deixando pra trás o império Grego, Romano, a idade média e a exposição do Wahol? Ou, como você vai ao American Museum of Natural History e vê apenas os dinossauros, deixando pra trás todo o resto? Tipo: você sabia que um monte de gente tem fome e você tá jogando o seu resto fora? (aliás, fazendo um parêntese, conheço algumas pessoas que sempre deixam 1/4 da comida que colocam no prato completamente intocada. Eu fico indignado com isso! Além de várias outras coisas mais pesadas, ainda tem aquela atitude de: sim, eu paguei e faço dela o que bem entender!). Então? como justificar pra mim, myself, fazer exatamente igual? Isso ficou tão sério que depois de ver a ala do Egito antigo tive que sair do museu e ir comer um hot dog americano (vulgo salsicha, ketchup e mostarda) com suco de mamão (papaya juice) na rua. Não sei se fiquei mais abestado com o tesouro e a riqueza daquele povo antigo ou se com a ousadia de um pais que toma pra si coisas que não deveriam estar ali. Claro que é lindo ver uma múmia de 4000 anos na sua frente, ou de entrar numa catacumba original do Egito remontada inteira dentro do pavilhão do museu, numa instalação gigantesca. Mas tenho certeza que se estivéssemos com 40°C de temperatura, o vento seco do deserto batendo no rosto e as vozes dos egípcios falando a todo tempo, essa percepção seria toda cheia de sangue, de vida. Aqui, a sensação que dá é que algo está fora do lugar, incomodando o tempo todo. Parece filme americano dublado: você sabe que estão te escondendo alguma coisa. Depois desse descarrego, de pensar sobre isso tudo e do meu hot dog com papaya juice, voltei ao museu e vi a ala dos impérios Grego e Romano. Ali, de novo, o mesmo incomodo: claro que se perder por Roma e Atenas é bem melhor! Bem, juro que tentei ir ver a ala da Idade Média, mas não tive mais forças. Aqueles anjos iluminados no céu, impassíveis diante daqueles horrores da vida na terra, sempre descritos à meia sombra, ou mesmo na escuridão, fizeram com que eu saísse correndo da primeira galeria e fosse procurar o terraço do museu onde todos dizem que a vista pro Central Park é linda. Lá eu poderia ver a luz do céu, e quem sabe até mesmo o meu anjo da guarda me olhando. Mas repare a peste! A menina da recepção me informou que ele só fica aberto até outubro, e por causa do frio eles não abrem até o próximo verão. Foi castigo! Ai não teve jeito; fui embora sem nem ir ver o Wahol. E a minha pergunta seria na mesma direção se eu tivesse ido ver a ala dele, tenho certeza: pra que ver o Wahol no Metropolitan se eu posso ir ao supermercado, por exemplo?
Saturday, 10 November 2012
Tabaréu
Hoje, às 5:30, abrindo o portão da rua aqui de casa em Areia Branca para ir à feira, deparei-me com a seguinte situação: um guri de mais ou menos uns 8 anos de idade, montado num cavalo três vezes mais alto que ele, levando laranja nos caçuás e entoando: êeee mimosa, vaaamos mimosa! êeeee mimosa!!! Claro que eu tive que olhar quem era essa mimosa e acabei procurei na mesma direção do olhar do menino. Pois, ai é que vi o tamanho da mimosa dele!!! Só Jesus!! Uma vaca, daquelas leiteiras, daquelas desenhadas nos potinhos de manteiga do supermercado. Linda, gigante, com os quartos largos, peitos balançando cheios de leite, pontas enormes e uma leveza no andar que parecia atender mesmo ao mimosa do seu nome. Fiquei tão besta com a imagem que voltei os olhos novamente para o menino. Ele, naquela altura, já estava me olhando. Eu, mais besta que qualquer besta, parado e de boca aberta na frente do portão. E, de repente, exatamente como os sertanejos se cumprimentam quando se cruzam nas estradas de terra batida do sertão, ele balançou de leve a cabeça pra mim e disse: opa, bom dia! E eu... eu respondi, mas sem firmeza: bom dia. Sem chegar aos pés da elegância daquele menino. Respondi, como um idiota da cidade grande responderia... daqueles que acham, de fato, que aquelas cenas só se vêm em filmes antigos na televisão. Que pensam que as alfaces brotam das fileiras do supermercado. Ele, do alto da sua elegância, compreendeu logo o desencontro. E eu fui pra feira envergonhado. Completamente triste por me sentir um sertanejo de quinta categoria, um verdadeiro tabaréu.
Saturday, 20 October 2012
Nome de ruas I
Acabei de pregar, na sala aqui de casa, uma plaqueta de uma rua de Paris, a ‘Rue des Mauvais Garçons’. Já tenho outra plaqueta colada na mesma parede, a da ‘Camdem High Street’. E esse canto ficou sendo uma espécie de esquina dentro de casa. A minha ideia é encher essa parece com nomes de ruas de cidades que passei e onde aconteceram coisas engraçadas. A ‘Camden High Street’ é uma delas. E a minha historia com essa rua veio da minha primeira visita à Londres. Depois de dançarmos a noite inteira no ‘The Dublin Castle’ e de bebermos todas as cervejas possíveis e imagináveis, principalmente para uma pessoa que não gosta de cerveja, fomos embora. O problema é que, àquela hora da madrugada e naquele local, os ônibus vermelhinhos (que uma amiga carioca iria apelidar propriamente de menstruadinhos!), não passavam, e por mais que acenássemos para os taxis pretinhos bonitinhos, nenhum tinha dó da gente. (Eu acho que aquilo era puro preconceito com esse árabe aqui! Imagine um preto com cara de árabe dando com a mão às 4h da manhã?) Passamos muito tempo nesse corre-pra-cá-corre-pra-lá, até que decidimos ir embora andando mesmo. E descemos a ‘Camdem High Street’ as 4h da manhã, completamente bêbados, com a companhia de apenas alguns bebuns saindo dos pubs ao longo da rua, e nós, igualmente bêbados! Nem percebemos a distância até o hotel! E ainda paramos pra comer um Donner Kebab antes de irmos dormir! Bem, é por isso que não pude deixar de comprar a plaqueta da rua e ter ela aqui em casa. Já a ‘Rue des Mauvais Garçons’, em Paris, é ótima porque, pra mim, mostra bem essa ideia dos Europeus de como dar nome às ruas. A Rua dos Meninos Malvados. Já até fiz um post aqui nesse blog sobre os nomes das ruas de Strasbourg, que me intrigavam bastante. Pra mim, cada rua deveria se chamar, realmente, de acordo com as suas histórias mais famosas: esse negócio de nome de político e de seus parentes de até 5° grau, que ninguém conhece, nem jamais vai conhecer, é idiota demais! Digo isso tudo porque Areia Branca city ganhou plaquetas com os nomes das suas ruas há uns meses atrás. E, apesar de ser uma cidade que possui várias histórias dos nomes das ruas, nomes populares, não estou certo de que todos eles tenham sido assumidos, provavelmente indo na mesma direção da maior parte das cidades do Novo Mundo. Será que ainda podemos andar com cuidado pela Rua da Lama? Ou pelo Beco das Calçolas? Lembro do Claude Lévi-Strauss no ‘Tristes Tropiques’ sugerindo que nós, do Novo Mundo, temos muita vergonha do que é velho e, portanto, da nossa própria história.
Monday, 16 July 2012
Filosofia II
Tenho um amigo que me disse que quando era pequeno,
parava na mesa durante o almoço, olhava pra todos sentados e dizia enfático:
podem falar a verdade, isso tudo aqui não existe, né? Isso tudo aqui é de
mentira, né?. Essa historia do meu amigo nunca me saiu da cabeça por que eu
também já me parei varias vezes antes de dormir tentando refazer a historia do
meu dia como alguém que não conhecesse o que se chama de verdade. O que é a sua
verdade? Com certeza ela não é igual a minha! Talvez pelo fato de desde pequeno
eu ter aprendido duramente que sou daltônico me fez sempre pensar em tudo o que
todos dizem que é “o certo”. Quando levei aquele caderno de exercícios
(Trabalhando com Mapas) pra professora Inara e ela me disse assustada “mas por
que você pintou o oceano de roxo?”, eu nunca mais fui o mesmo. Decididamente, a
minha verdade não é a sua verdade. E hoje, ouvindo uns amigos falarem de
filosofia, e da historia do pensamento humano, me pego cada vez mais abestado.
Dizem que a pior herança que a humanidade teve foi o pensamento moderno. O
pensamento pós-socrático-platônico. Antes de Platão e Sócrates, a vida era uma
mutação constante, um mistério, longe da ciência, onde as coisas nunca eram
explicadas de maneira definitiva. Não existia a verdade. As coisas e pessoas se
transformam. O corpo em si é muito mais importante que o pensamento que define.
Por isso a mitologia grega, cheia de estórias tortuosas pra explicar a vida. O
tempo que nunca teve nem fim nem começo. E a gente no meio disso tudo todo dia
se modificando, e sem qualquer verdade que possa nos guiar. Platão e Sócrates
estabelecem no século V antes de cristo o pensamento moderno, o pensamento de
busca da verdade. A base do pensamento começa a se fundamentar em frases
construídas com sujeito/verbo/predicado. Ou seja, um sujeito que faz uma ação e
causa alguma coisa. E se alguma coisa dá errado, existe hoje sempre um sujeito
que praticou essa ação nefasta! É a ideia do pensamento e do homem como centro
de tudo. A verdade é sempre presente. E, por mais que isso seja imperceptível,
hoje quando dizemos “eu sou um nordestino”, estabelece-se imediatamente a minha
verdade que é compartilhada com quem me escuta. Eu sou nordestino. Essa é a
verdade. O verbo ser como o imperador da verdade ocidental. O que não existe em
várias línguas orientais, como o
mandarim. O verbo ser no mandarim não existe. O que existe de mais próximo é o
verbo da transformação. Em mandarim não se diz “eu sou bom”, se diz “eu me
transformo em bom”. O que é muito mais próximo do pensamento pré-socrático-platônico. E nos que falamos o
português, ainda estamos numa vantagem em comparação a varias outras línguas
ocidentais. O fato de podermos distinguir entre o ‘ser’ e o ‘estar’ ainda te dá a possibilidade de partilhar dessa
estrutura de pensamento original.
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