Thursday, 15 May 2008

Cartas à minha irmã


Pois é, eu não sei por onde começar. Nem por onde terminar. Então, vou ficando pelos meios mesmo. E foi ai que descobri que a Pink come besouros, muitos, e de todos os tipos. Ela parece gostar. Antes, eu achava que era só pra brincar, mas que nada! Acho que ela deve ter comido algum e gostou. Depois, achou que todos deviam ter o mesmo gosto. Desde que as chuvas começaram aqui é uma festa de besouros, e uma festa depois de soltar a cadela pulguenta. Ela corre atrás de todos! Hoje (e só hoje!) ela comeu uma cigarra, um cachorrinho e dois besouros pretos de cascão. Ainda ontem eu vi outras duas cigarras e um besouro entrando no cardápio dela. Isso vai durar até o dia em que ela comer um barbeiro cheio de trypanosomo cruzi e morrer de doença de chagas. Cachorra chique, essa! E ela não tem mais caspa, nem aqueles caroços, nada. Só fede que é uma beleza! Azar o dela.
Outro dia, um gato quase morre afogado na piscina. Passamos a noite toda ouvindo um miado de gato pro lado da piscina até que, antes de sair e fechar de vez a porta do lado, fui ver de onde vinha aquele miado. Pois quando cheguei perto da piscina: um gato todo molhado agarrado na haste da escada! Tirei ele da piscina com a peneira e o bicho saiu correndo e tremendo. Coitado. Neném disse que desde o meio dia ela já tinha escutado um gato miando naquele lado. Nadou pouco, o bichinho! Pense!
Chega de animais sem inteligência. Vamos falar desse bichão aqui. Todo gostosudo, e que deixa as meninas daqui loucas quando passa pela rua. Hahahahaha! Pois é, preciso casar... cada dia eu tenho a sensação mais estranha de estar voltando de vez pra cá. Isso ainda não me inquieta tanto: estou de férias! Não estou. Preciso logo fazer novos amigos aqui, sair, ver gente interessante. É tudo igual a quando eu ainda estava na graduação. E isso me angustia um pouco. Mas eu estou de férias!
O Vavau pescou um bocado de peixe hoje e trouxe aqui pra casa. Comi com cuscuz e café extra-forte! Êba! Amanhã vou levar o desenho da minha escrivaninha para o rapaz fazer tudo de jaqueira. Já lavei meu casaco duas vezes, mas a chuva não deixa secar. Não tenho feito nenhum exercício, fora aqueles mentais. Não sei o que fazer de exercício, e nem sei se quero agora. Mas não tenho comido muito, estou tranqüilo. Acabei de tomar banho e já estou com calor de novo. A porta do quarto está fechada por causa das muriçocas. E a vida continua em cor de rosa.

Saturday, 10 May 2008

Au lieu d’un sandwich à la mortadelle



Et en plus il y a la pluie tout le temps, même quand on est encore début d’avril et ce n’est pas froid du tout, et les gens me demandent ce que je fais ici et je ne sais pas bien répondre car moi-même je me sens un étrangère dans cette ville où je suis né une trentaine d’année auparavant mais qui garde encore cet air provincial, sans que jamais se puisse savoir la vérité gardé à tous ce gens perdues au hasard, dans un monde sans point final, sans arrête, un monde si petit à la fois que je peux le dépasser par voiture dans deux heures de route et qu’au lien d’arriver à une autre pays on a l’impression toujours d’arriver à notre point de départ, et soudain il faut se demander sur l’avenir de tout ça, ce tout ça qui est résumé à une envie de manger, quelque ce sois, pour comprendre d’une façon à peu près correct qu’on a eu tort depuis le commencement, depuis la dernière pluie, depuis le dernier dimanche gaspillé en train d’aider le monsieur du bois à ranger ces affaires, celles affaires qui n’ont jamais été rangé et qui même bien rangés seront toujours celles affaires, rien d’autre, et soudain on se rappelle que le monde ailleurs roule si vite que nous laisse chaque fois plus loin, tellement loin qu’il faut toujours surveiller la boite aux lettres, fréquemment plain du vide, c’est vide qui est parmi tout, moi et toi, et aussi dans l’idée général d’un texte comme ça, écrit tout d’un coup, comme un battement de cœur, sans rien de spécial et plain des fautes grammaticaux qui doivent donner un certain l’air imbécile en plus à n’import quel être vivant qui essaie d’écrire une langue si particulière, si carré en ses sons, si jaunis (le jaune qui toujours m’avait rendu heureux), d’ailleurs, je n’ai jamais essayé de traduire "je suis bouleversé" malgré je sache le sentiment qui vient avec ça – mesdames et messieurs, et si un jour on était obligé d’y aller au dictionnaire pour bien traduire ce qu’on sent, et si, en ce même instant, au lieu d’un sandwich à la mortadelle on avait décidé d’y prendre un croissant à la fois, serait-il notre monde le même toujours?

Saturday, 3 May 2008

Pipita X Cinform



E quem disse que somente no Rio de Janeiro a gente pode abrir o jornal e ler em letras gigantes: PIPITA CONTINUA A DESAFIAR A POLICIA E LEVA PANICO AO ESTADO INTEIRO. Pois é, desde que cheguei aqui em Sergipe, não se falava em outra coisa nos jornais senão nas aventuras horríveis de um menor de idade chamado Pipita. Na verdade, ele invadia casas e sítios, alta noite, pra roubar e arranjar sexo “fácil”. Vez por outra, alguma vítima reagia e ele acabava matando. Bem, isso sendo contado no Rio de Janeiro seria uma história qualquer, possivelmente até banal. Mas aqui em Sergipe isso ganha outros tons. Eu acho que já falei aqui nesse “blog” que o jornal de maior circulação aqui em Sergipe, o Cinform (misto de noticiário e classificados... talvez mais classificados que noticiários), me deprime bastante. Primeiro porque não posso achar nada de interessante nos segundos cadernos. Segundo porque o jeito que as notícias são contadas é algo super provinciano. Eu também sou provinciano, em certa medida, mas o Cinform, meus amigos, ainda joga pedra em prostituta. Digo isso e vou daqui a pouco justificar o que falo. É que faz dois dias, prenderam o tal do Pipita numa cidade do sul do estado chamada Tomar do Geru. Sim. Ontem, abri o Cinform e comecei a ler a matéria sobre a captura (o assassinato) desse menor pela polícia do estado – que já estava sendo motivo de chacota pelos próprios sergipanos. O texto começava super bem e acabou me deixando de boca aberta, pois eu não achava nada pra justificar a minha repulsa em “ler o Cinform”. Até que, no último instante, eu tive a tristeza de ler (quase chorando) o seguinte texto: “... até o pai dele, o criminoso José dos Santos, conhecido como Didi, previu seu destino. ‘Ele escolheu esse caminho errado e vai ser triste o seu fim’, disse Didi ao CINFORM, na quarta-feira, pouco mais de 72 horas de o filho ser mandado aos quintos dos infernos”.

Wednesday, 30 April 2008

Areia Branca



Onde eu poderia ir aos Correios regularizar meu CPF (que novamente esqueci de cadastrar ano passado) e encontraria um funcionário capaz de preencher quase todo o meu formulário sem me perguntar nada?
Onde eu sentiria sono já as oito da noite?
Onde eu encontraria uma cidade vizinha como Itabaiana, onde as pessoas parecem milaneses, com um ultra-fashion style, sempre ricos, meio feios, inteligentes, espertinhos, e meio bregas?
Onde se conseguiria ouvir alguém dizer pro outro não “levantar alevo” querendo dizer não “invente coisas”?
Onde você tomaria suco de umbu e comeria cuscuz de milho no café da manhã?
Onde eu poderia sair na cidade e sentir um certo incômodo de estar sendo observado, me sentindo um pouco como uma estrela da novela das oito, andando livremente pelas ruas?
Onde eu me sentiria em forma, vendo todos os meus companheiros de infância se tornarem gordos, cheios de filhos e velhos?
Onde eu poderia sentir um calor infernal pelo dia e a noite sentir frio?
Onde você poderia ir na feira encomendar uma escrivaninha e um baú de jaqueira para decorar o quarto?
Onde eu poderia tomar uma cachaça e comer uma pitanga deliciosa logo em seguida? Ou um caju?
Onde se escutaria a mesma musica tocada toda a tarde de domingo em automóveis equipados como trios elétricos?
Onde eu seria obrigado a escutar a missa da tarde da velha Igreja da cidade deitado numa rede em casa?
Onde alguém não faria idéia do que é Needcompany? Nem Jean-Pierre Léaud? Nem Guinzu ? Nem cammembert ? Muito menos Ramón Salazar?
Onde se poderia colher tomates-cereja em arbustos que nascem sem que ninguém plante?
Onde eu poderia andar de manhã cedo num parque nacional e tomar banho num riacho de água vermelha, linda?
Onde eu poderia andar livremente pelas ruas sem pensar em balas perdidas e meninos maus e assaltos?
Onde eu correria de “mutucas” devoradoras de sangue (espécie de mosca gigante), logo após subir a ladeira que leva ao nosso sitio?
Onde você teria que olhar antes de atravessar a rua por causa de uma mistura geral de carros, pessoas, bicicletas, vacas, cavalos, carroças, etc...?
Onde eu poderia ler até três livros por semana?
Onde se poderia encontrar pessoas tão diferentes de mim?
Onde eu encontraria pessoas tão iguais a mim?
Onde se poderia achar areia branca a dois palmos do chão real da cidade?