Thursday, 19 January 2006

Os poderes de uma língua arcaica



"Ah bon!"
Essa é a mais linda expressão oral dos franceses... (sim, eu sei, existem outras expressões orais mais interessantes... mais eu falo de linguagem!). Eles dizem geralmente quando se assustam com alguma coisa, sobretudo, idéias. É um som super veloz: dura menos que um segundo... e pra nossa orelha de brasileiro fica algo como: a bô. (Se quiserem treinar, tentem dizer exatamente "a bô" em menos de 0,5 segundos.) Mas a extensão do som "a" diz mais ainda sobre o estado do francês que acabou de falar. Já tentei, tentei, mas o meu "ah bon" é sempre igual. Não consigo ainda alcançar essas sutilezas da língua. Outro dia numa festa eletrônica, uma super francesa me perguntou, entre outras coisas quentes, se era verdade que os brasileiros eram bons de cama... então, com a minha mania de tentar falar tudo direitinho, resolvi investir na paquera soltando um "ah bon" com o "a" um pouco mais estendido, o que indicaria pra ela que eu estava apenas sendo modesto, pois no fundo, no fundo, era tudo verdade. E esse "ah bon", dito por um francês autêntico e mal intencionado como eu, ainda iria mais longe: ela conseguiria facilmente entender que eu estava super a fim dela, e ainda que eu poderia, sem qualquer dificuldade, mostrar algo mais, pourquoi pas? Então, crente que iria conseguir, soltei um "ah bon" bem sonoro. Aaah bon! Esqueci de dizer outra coisa. É que existem alguns "ah bon", quando o "a" se estende demais, que significam: mas de que merda é que você ta falando?
E fim.

Tuesday, 10 January 2006

Quando não enxergamos os atalhos



Mas é que ele sentia algo que também era sem razão. E por isso, tudo que acontecia tinha outro sentido. As coisas eram outras e ele não sabia mais os seus nomes. Aquilo que lhe tocava vinha do fundo de uma outra realidade. E de tal modo haviam se disposto as coisas que o amor doloroso lhe pareceu felicidade. A força cega e o seu perigo. Mas onde? Pra quê? Enquanto isso, na rua, alguém gritava o preço de um quilo de tomates. Quem iria comprar?

Monday, 26 December 2005

Sobre vinhos



Os "Bordeaux" são alegres, meio sabidinhos, um pouco amadeirados, quase pretos, dos guetos, das vilas, ruelas, do barulho, das festas onde se fala alto, onde se vive uma vida leve – os hippies. Os "Bourgogne" são tímidos, super sérios, falam o estritamente necessário, escondem sempre o melhor da vida, e é justamente esse mistério sobre sua verdadeira alegria que os fazem doces – mas para os que o entendem. Os da "Côtes du Rhone" são falsos, levemente salgados, frios, ficam vermelhos quando pedimos mais um copo, crentes na sua perfeição, eles nunca se dão conta da sua própria fraqueza e, no entanto, sempre nos deixamos enganar por eles. Os "Alsaciennes" são super simpáticos, brancos, super brancos, aloirados, são sempre importantes, soberanos, ricos, esbanjam, esnobam, moram em castelos e só aparecem no fim das refeições pra dizer "estou de saída", sem nem sequer dizer "bonsoir" as visitas... super enjoativos, merecem apenas o nosso desprezo quando pedimos um café pra encerrar a noite.

Tudo começa quando vamos à cave em busca deles. Os vinhos tintos podem ser guardados muito tempo, os brancos, no máximo cinco anos. Entramos naquele mundo sujo, sem ar, sem luz, de terra batida, e começamos a buscá-los. A idade do vinho escolhido vai depender sempre da importância afetiva da visita. Um de 1999, seis anos adormecido. E jamais se tira a poeira da garrafa antes de servi-la: ela deve ir pra mesa completamente empoeirada, sob uma poeira que é nobre. Teias de aranha também são chiques. Enquanto o anfitrião abre a garrafa nos conta, à mesa, um pouco sobre a historia do vinho, quem lhe presenteou, em que situação foi comprado... então, o vinho é colocado numa jarra própria pra que ele respire um pouco. Quando a historia do vinho termina e todas as perguntas e constatações dos presentes já foram feitas, o vinho é servido. O anfitrião sente o cheiro do vinho e dá o primeiro gole. As outras taças são preenchidas. Podemos brindar a qualquer coisa e quem quiser pode falar algo. Todos irão ouvir atentos. O brinde é feito olhando nos olhos da outra pessoa, o desvio é falta de respeito. E todos bebem. Os vinhos são trocados à medida que novos pratos são servidos. Tudo se repete a cada abertura de garrafa. E tudo que nos parece – aos brasileiros – muito artificial é, na verdade, pra eles – os franceses – algo super natural. Algo que deve ser justificado pelo medo medieval de se ser envenenado durante as refeições.

Saturday, 8 October 2005

Os riscos que vem do céu



Tem algo de estranho no céu da Europa... são os riscos. É que não existe um só momento, nem qualquer lugar no céu, onde você possa ver um azul límpido, sem traços de humanidade. O céu da França é inteiramente cortado por aviões, e como aqui é muito frio, todos eles deixam marcas no céu. Agora mesmo eu posso contar três riscos no céu. E o mais engraçado é que todos eles apontam numa direção, dando a impressão de que são propositalmente desenhados pra informar alguma coisa... um código, uma mensagem. Os aeroportos das cidades menores são sempre compartilhados, Mulhouse/Basel, Karlsruhe/Baden-Baden, e os aviões que ligam essas cidades são sempre os menores do mundo. Quando cheguei ao Charles de Gaule em Paris estava acostumado à tranqüilidade de voar no segundo andar de um Boeing 747-400 da Air France e quando fiz a conexão que me traria à Mulhouse achei que estava no Terminal errado. O ônibus parou ao lado do avião e esse era um tipo Fokker 100 diminuído. Sentei numa janela e a fila de poltronas era única. O avião levantou vôo e eu achei muito legal o contraste entre os dois aviões. Hoje sei que o primeiro era uma copia do Rio enquanto que este ultimo era a copia de Mulhouse. Bem, depois do nosso lanche, o piloto anunciou a localização do avião e nos apontou as montanhas Vogues. De repente, surgiram na nossa frente nuvens enormes. Estávamos a 11Km de altitude e elas ainda iam além. Fiquei apreensivo, pois do mesmo modo que elas estavam do nosso lado poderiam existir outras na nossa frente. Sim, existiam. Nunca senti uma sensação como aquela. Não era uma turbulência de Boeing 747-400, era quase um brinquedo de parque de diversões. A luz do cinto acendeu e o piloto proibiu o trânsito a bordo, como se fosse mesmo possível... Olhei outra vez pra fora e percebi exatamente a fúria daquelas nuvens.

Outro dia, já em terra, estava dentro do orelhão telefonando pro Brasil quando escutei um barulho estranho. Parecia um avião, ou um trovão. Mas era improvável que fosse uma tempestade, pois o tempo estava bom. Quando sai e olhei pro céu vi que se tratava mesmo de uma tempestade. E as nuvens, meu deus, as nuvens! Elas eram as mesmas que eu tinha visto do céu; a mesma fúria, a mesma agressão, a mesma violência. Pensei mesmo que num lugar como esse, alguma coisa tem que ser violenta, pra haver um equilíbrio. São as nuvens. Os demônios aqui moram no céu.