Tem algo de estranho no céu da Europa... são os riscos. É
que não existe um só momento, nem qualquer lugar no céu, onde você possa ver um
azul límpido, sem traços de humanidade. O céu da França é inteiramente cortado
por aviões, e como aqui é muito frio, todos eles deixam marcas no céu. Agora
mesmo eu posso contar três riscos no céu. E o mais engraçado é que todos eles
apontam numa direção, dando a impressão de que são propositalmente desenhados
pra informar alguma coisa... um código, uma mensagem. Os aeroportos das cidades
menores são sempre compartilhados, Mulhouse/Basel, Karlsruhe/Baden-Baden, e os
aviões que ligam essas cidades são sempre os menores do mundo. Quando cheguei
ao Charles de Gaule em Paris estava acostumado à tranqüilidade de voar no
segundo andar de um Boeing 747-400 da Air France e quando fiz a conexão que me
traria à Mulhouse achei que estava no Terminal errado. O ônibus parou ao lado
do avião e esse era um tipo Fokker 100 diminuído. Sentei numa janela e a fila
de poltronas era única. O avião levantou vôo e eu achei muito legal o contraste
entre os dois aviões. Hoje sei que o primeiro era uma copia do Rio enquanto que
este ultimo era a copia de Mulhouse. Bem, depois do nosso lanche, o piloto
anunciou a localização do avião e nos apontou as montanhas Vogues. De repente,
surgiram na nossa frente nuvens enormes. Estávamos a 11Km de altitude e elas
ainda iam além. Fiquei apreensivo, pois do mesmo modo que elas estavam do nosso
lado poderiam existir outras na nossa frente. Sim, existiam. Nunca senti uma
sensação como aquela. Não era uma turbulência de Boeing 747-400, era quase um
brinquedo de parque de diversões. A luz do cinto acendeu e o piloto proibiu o
trânsito a bordo, como se fosse mesmo possível... Olhei outra vez pra fora e percebi
exatamente a fúria daquelas nuvens.
Outro dia, já em terra, estava dentro do orelhão telefonando pro Brasil quando escutei um barulho estranho. Parecia um avião, ou um trovão. Mas era improvável que fosse uma tempestade, pois o tempo estava bom. Quando sai e olhei pro céu vi que se tratava mesmo de uma tempestade. E as nuvens, meu deus, as nuvens! Elas eram as mesmas que eu tinha visto do céu; a mesma fúria, a mesma agressão, a mesma violência. Pensei mesmo que num lugar como esse, alguma coisa tem que ser violenta, pra haver um equilíbrio. São as nuvens. Os demônios aqui moram no céu.
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