Os "Bordeaux" são alegres, meio sabidinhos, um
pouco amadeirados, quase pretos, dos guetos, das vilas, ruelas, do barulho, das
festas onde se fala alto, onde se vive uma vida leve – os hippies. Os
"Bourgogne" são tímidos, super sérios, falam o estritamente
necessário, escondem sempre o melhor da vida, e é justamente esse mistério sobre
sua verdadeira alegria que os fazem doces – mas para os que o entendem. Os da
"Côtes du Rhone" são falsos, levemente salgados, frios, ficam
vermelhos quando pedimos mais um copo, crentes na sua perfeição, eles nunca se
dão conta da sua própria fraqueza e, no entanto, sempre nos deixamos enganar
por eles. Os "Alsaciennes" são super simpáticos, brancos, super
brancos, aloirados, são sempre importantes, soberanos, ricos, esbanjam,
esnobam, moram em castelos e só aparecem no fim das refeições pra dizer
"estou de saída", sem nem sequer dizer "bonsoir" as
visitas... super enjoativos, merecem apenas o nosso desprezo quando pedimos um
café pra encerrar a noite.
Tudo começa quando vamos à cave em busca deles. Os vinhos
tintos podem ser guardados muito tempo, os brancos, no máximo cinco anos.
Entramos naquele mundo sujo, sem ar, sem luz, de terra batida, e começamos a buscá-los. A idade do vinho escolhido vai depender sempre da importância
afetiva da visita. Um de 1999, seis anos adormecido. E jamais se tira a poeira
da garrafa antes de servi-la: ela deve ir pra mesa completamente empoeirada,
sob uma poeira que é nobre. Teias de aranha também são chiques. Enquanto o
anfitrião abre a garrafa nos conta, à mesa, um pouco sobre a historia do vinho,
quem lhe presenteou, em que situação foi comprado... então, o vinho é colocado
numa jarra própria pra que ele respire um pouco. Quando a historia do vinho
termina e todas as perguntas e constatações dos presentes já foram feitas, o
vinho é servido. O anfitrião sente o cheiro do vinho e dá o primeiro gole. As
outras taças são preenchidas. Podemos brindar a qualquer coisa e quem quiser
pode falar algo. Todos irão ouvir atentos. O brinde é feito olhando nos olhos
da outra pessoa, o desvio é falta de respeito. E todos bebem. Os vinhos são
trocados à medida que novos pratos são servidos. Tudo se repete a cada abertura
de garrafa. E tudo que nos parece – aos brasileiros – muito artificial é, na
verdade, pra eles – os franceses – algo super natural. Algo que deve ser
justificado pelo medo medieval de se ser envenenado durante as refeições.
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