Eu já falei tanto sobre os cheiros da França... mas vou
continuar a falar sobre isso. É que hoje de manhã, um pesquisador à beira da
aposentadoria, deu a maior bronca no rapaz que faz a limpeza, reclamando do
cheiro do produto que ela passava no chão. Ele reclamava que o cheiro do
produto estava super forte, e pediu pra o rapaz abrir o reservatório de
produto, e ir buscar a caixa do produto pra que ele pudesse ler sobre a
composição. Fiquei tão chocado com aquela cena; não pela grosseria do nosso
colega (isso já é muito comum no nosso meio de pesquisa, onde os egos são
enormes), mas pela constatação de que o cheiro que eu sentia devia ser completamente
diferente daquele que o velho sentia. Na verdade eu estava achando super
agradável. Tanto que ele me perguntou sobre o que eu achava do cheiro, certo de
que eu iria compactuar com sua observação "imunda", mas na verdade eu
me fiz de desentendido e falei displicentemente: tem um cheiro de limpeza – se
é que isso existe. Bem, fiquei pensando nos cheiros da França. E como eles
podem ser diferentemente tratados pelos estrangeiros. Outro dia, passei pela
sala desse mesmo senhor e senti um fedor no ar que mais parecia algum sanduíche
de munster abafado por uns três dias, esquecido num canto qualquer. Ele, o
senhor, estava feliz e cantante. Ninguém foi reclamar com ele. Tem algo errado
nos cheiros do mundo, não? Ou sou eu que além de daltônico, sou olfato-deficiente?
Não acredito nisso. Na verdade, quem tem alguma deficiência em algum dos
sentidos acaba super-desenvolvendo os outros. Por falar nos cheiros da França,
os meios de transporte públicos começam a ficar impraticáveis: essa época de
transição verão/inverno deixa os franceses dias sem tomar banho... ou melhor,
sem encostar em água. Ainda por cima tiram os casacos sujos guardados do
inverno passado... meu deus! Ainda mais porque ainda não é tempo de ligar o
aquecimento geral. Até eu já passei uns dois dias sem tomar banho... mas, ao
contrário deles, eu sempre vou saber quando estou fedendo. Não sei até
quando...
Sunday, 5 October 2008
Thursday, 2 October 2008
Comprimento de onda
Aqui existe uma expressão usada por todos – entre outras
tantas – que define completamente a nossa diferença cultural perante os
franceses. Se eles encontram alguém interessante e que tem pensamentos e idéias
parecidas, eles dizem: "nous sommes toujours sur la même longuer
d'onde" (estamos sempre no mesmo comprimento de onda). Obviamente que essa
expressão se refere à idéia básica da ressonância em física. Fico pensando que no
Brasil, provavelmente, uma expressão como essa nunca seria moda. Estou errado?
Quantas pessoas no Brasil saberiam o que significa ressonância? É
impressionante como aqui você pode juntar na mesma mesa varredores de rua,
pedreiros, universitários, aposentados, carpinteiros... e todos vão discutir
sem problemas sobre a mesa. Salvo algumas exceções, claro. Ontem, vi por acaso,
no blog de um jornalista sergipano super sério que apresenta o jornal da TV
Aperipê, um vídeo mostrando as chamadas da propaganda eleitoral no Brasil. Meus
amigos, o que a gente pode esperar de um país como o nosso? O que podemos
fazer? Eu não sei.
Tuesday, 23 September 2008
L'humanioc
Esse fim de semana foi a "Fête de l'Humanité"
(Festa da Humanidade) em Paris. A festa do comunismo. Fomos todos.
Perguntaram-me muito porque não existia uma representação do Brasil e eu não
soube responder. E talvez seja essa a resposta. Bem, franceses, todos,
comunistas ou não, fizeram a festa mais maluca, sobretudo depois de alguns
goles a mais. A França bêbada é quase um Brasil, imbecil e exótico. Também sem
representações possíveis. Embora aqui a gente sempre possa alcançar
vertiginosos 347 Km/h.
Monday, 1 September 2008
Trinta anos
Trinta anos têm um peso muito grande pra um corpo à toa.
Seria preciso salvar alguém numa situação semelhante. Mas me parece que não
existem salva-vidas pra aqueles que entram nessa fase da vida... E mesmo que
houvesse, seria um salvamento à toa. Igual ao de Cabiria no início do filme do
Fellini (Nottes di Cabiria). Quem se lembra? Fiquei tão chocado com aquela cena
no inicio do filme que passei o resto do filme numa situação de emergência. Tão
urgente que a última cena do filme, quando a vida mais uma vez bate sua porta,
me faz chorar até hoje, o que me impede de revê-lo. Nada poderia ser mais cheio
de alegria do que a vida que se mostra à sua frente. E você precisa escolher
por onde seguir. Mas ainda assim, eu preferiria que alguém me salve até
segunda-feira. Porque é um abismo sem fundo, esse que a gente cai sem nem se
dar conta, a cada dia. Hoje eu arranquei mais um cabelo branco. Seria essa a
salvação?
Friday, 15 August 2008
As ruas de Strasbourg
O centro de Strasbourg é bem pequeno, mas as ruas são super confusas. E às vezes, andando sozinho à noite, acabo me assustando com algumas delas. Parece que estou num filme da idade média na Europa. Mas o que tem de mais engraçado nas ruas de Strasbourg são os seus nomes. Todos muito curiosos. Por exemplo, tenho uma amiga que mora na rua da brincadeira das crianças (rue des Jeux des Enfants), que é também a rua do melhor cinema da cidade. E pra chegar lá eu sempre gosto de ir pela rua do velho mercado dos vinhos (rue du Vieux Marché-aux-vins). Saindo do cinema, eu posso pegar a grande rua (Grand rue) até chegar à rua do banho de plantas (rue du Bain aux Plantes), passando pela rua da moeda (rue de la Monnaie). Isso, claro, se eu não me sentir bem em passar pela rua dos moinhos (rue des Moulins). Porque é sempre melhor comer um Doner Kebab na rua do velho mercado dos peixes (rue du Vieux Marche-aux-poissons) e depois ir andando pela rua do porco-do-mato (rue du Sanglier) só pra me assustar com a visão da igreja triste ao fundo da rua queimada (rue Brulée). E ai eu preciso sair correndo pela rua da cruz (rue de la Croix), do lado da rua dos judeus (rue des Juifs), até chegar ao cais de areia (Quai au Sable). E de lá eu posso escolher entre ir pela rua das vacas (rue des Veaux) ou voltar pela rua dos casais (rue des Couples), mesmo sabendo que essa rua fica bem perto da praça do corvo (Place du Corbo). Mas existem alguns itinerários mais divertidos. Por exemplo, chegar à estação de trem e sair de bicicleta em toda velocidade pela rua da corrida (rue de la Course), virar a esquerda na rua deserta (rue Deserte) e me deixar queimar completamente como uma bruxa na rua do fogo (rue du Feu).
Monday, 4 August 2008
Luxembourg
Da minha janela eu olho precisamente e sempre na mesma direção. Eu sei que atrás daquelas chaminés todas mora a capital de Luxembourg. E essa é a minha direção mais alegre nesse momento. Sempre que acordo, adoro abrir a janela, me projetar todo pra fora e, quase caindo do prédio, sentir aquele frio calmo da manhã, olhando atentamente o céu azul que, pra mim, deve pairar exatamente sobre as cabeças dos luxemburgueses. Eu nuca estive lá. E não gastaria mais de uma hora pra estar lá. Mas quando olho pela janela, tudo parece tão longe... tão longe quando o Brasil... e assim, acabo me alegrando só pela sua proximidade física (igualmente real pra mim). O que eu veria em Luxembourg? O que me diriam os luxemburgueses? Quais seriam as cores dos sinais de trânsito nas ruas? Na verdade, eu sempre gostei de saber das coisas fisicamente próximas sem que fosse preciso chegar até elas. Minha irmã, um dia, deitada na minha cama de jaqueira em Areia Branca, falando sobre a minha obsessão em me apaixonar perdidamente (e re-afirmo, perdidamente) por pessoas sempre impossíveis – ou indisponíveis – foi a responsável por me fazer compreender, dias atrás, abrindo minha janela, que essa obsessão parece realmente uma escolha sempre presente na minha vida. Mas só até hoje. Porque eu acabei de comprar uma passagem de trem pra Luxembourg e a partir de hoje nunca mais minhas escolhas serão impossíveis. Chega de impossibilidades na minha vida! Pessoas inacessíveis, lugares impossíveis, idéias ininteligíveis. Eu quero a realidade pulsando forte entre minhas mãos. E nada mais.
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