Nada menos do que quando ele dizia que queria ficar
sozinho: aquilo só revelava mais e mais a sua angustia sem sentido. A sua
solidão pisada. Quase crônica. A sua alegria desesperada. E a ausência de vida
que se seguia aos longos segundos antes de se dizerem "até amanhã". Aquela
ausência de amanhã. Aquela ausência de sono. Aquele frio sem sentido. Tudo nele
era programado. Sua ejaculação vinha em soluços separados por exatos dois
segundos de pausa absurda. Como sempre foi absurdo o mundo ao seu redor. Como o
nevoeiro que chegava todo final de tarde, encobrindo os rostos daquela cidade
também absurda. Contatos eletromagnéticos sobre uma mensagem no meio da
madrugada. Uma mensagem que dizia: apenas: são três da manhã e eu não sei o que
fazer. Quem saberia o que fazer as três da manhã? Ondas eletromagnéticas que
lhe impediam de dormir. Nem sonhar ele sabia. Apesar de sempre ter acreditado
nos sonhos, apenas para não se sentir inumano. Porque ele também gostava de
dormir com o seu braço direito apoiado sobre a perna quente da pessoa do lado.
Porque ele também gostava de sentir a umidade nas costas ondulantes da pessoa
de baixo. Porque ele sempre gostou de olhar, ainda deitado na cama, um corpo nu
que se move desajeitado em busca de um copo d'água. Mas seu beijo tinha um
gosto salgado, violento. Logo ele, que nunca soube ser violento. Logo ele que
foi capaz de um dia colocar de volta no ninho um passarinho morto caído na
grama ao lado da calçada. Talvez porque os seus olhos não se importassem com
cores. Alias, ele lia "Mrs Dalloway" em inglês como se as flores
tivessem a missão de serem amarelas. Pobre criatura... elas nunca seriam
amarelas; elas sequer seriam flores. E mesmo assim, se um dia a sua urina
saísse vermelha numa manhã de inverno, ele ainda assim iria à feira, como um
analfabeto que atravessa os trilhos sem entender que eles estão energizados.
Ele foi sempre um sobrevivente.
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