Friday, 23 June 2006

Reims



Senti fome e desci. Estou em Reims. Fui num restaurante do lado do Hotel. Era ainda nove horas da noite e parecia meio dia. Coisa estranha isso do sol ir embora as dez da noite e pior, subitamente, quando você menos espera. A noite. A garçonete me perguntou o que eu queria e eu disse que ainda ia me divertir um pouco com os nomes do cardápio. Ela sorriu e sugeriu-me uma "terrine de lapin au romarin". Aceitei e pedi ainda um "pavê de saumon" como prato principal. Pra beber, um "rosé". Estou na terra do champagne. Chalons-en-champagne. Reims. Engraçado que todos os reis da Franca foram coroados aqui. Até eu queria ser coroado aqui. O fato é que o chão do restaurante era forrado com um carpete vermelho desenhado com vários trevos de quatro folhas. O vermelho sempre me irrita um pouco, mas hoje isso foi indiferente. Outro dia eu disse que iria ao Petit Zinc comer alguma coisa alsaciana e me perguntaram com quem eu iria. Eu respondi que iria sozinho. A pessoa se espantou e perguntou como eu tenho coragem de ir ao restaurante sozinho. Nunca tive muita coragem... mas ir ao restaurante sozinho nunca foi problema pra mim. Deveria? De qualquer modo, hoje eu me dei conta que estava sozinho naquele restaurante e isso foi diferente. Na minha frente tinha um casal. A loira era interessante, super linda, mas meio irritante, mais que o carpete. O moço lia jornal. Ela não parava de olhar pra mim e achei, de inicio, que aquilo tinha algo de sexual. Sim, era exatamente isso e aquilo me deixava mais sozinho ainda. Quando alguém olha pra mim aqui eu nunca sei distinguir bem a curiosidade do interesse. Talvez ela tivesse só curiosa por eu ser preto e falar de um jeito engraçado. Não perguntei, e resolvi comer uma "pêche melba" como sobremesa. Não sei o que aconteceu, mas aqui em Reims eu poderia mesmo ser coroado. Desde que cheguei não paro de ser elogiado, sobretudo pelas mulheres. E elas são lindas aqui – à la Marie Antoinette (Maria Antonieta). Será que foi porque cortei o cabelo? Mas eu sou tão feio que quando alguém diz que eu sou bonito eu já penso logo que essa pessoa não pode ser minha amiga. Não sorriam. E ela continuava a olhar pra mim. Então, decidi olhar pra ela também, intensivamente. A mesma pessoa que perguntou se eu tinha coragem de ir num restaurante sozinho perguntou-me também se eu lia jornal durante a refeição, pra passar o tempo. Disse que não e ela se assustou. Não tenho muita paciência pra jornal, sobretudo os primeiros cadernos. Vim a Reims pra trabalhar filmando o que acontece com células ósseas humanas sobre o meu material e acabei conhecendo um casal muito legal. Ele, um príncipe, o Patrice, ela, nem tanto, a Alicia. Com certeza muita gente deve a achar feia. Mesmo horrível. E eles devem ser motivo de chacota por onde passam. Isso é chato e mesmo imbecil. Tudo isso só me fez ficar mais fascinado pelos dois. Eles me convidaram pra jantar num restaurante ao pé da igreja onde os reis eram coroados. Comemos saladas e tomamos champagne. O filho deles, o Arthur, aprendeu meu nome: óli. Clovis foi o primeiro a ser coroado no ano de 700d.c., e podemos ver estatuas de Jeanne d'Arc (Joana d'Arc) por toda parte. Foi ela quem libertou Reims dos ingleses. A liberdade é sempre perigosa. O fato é que eu gosto de estar sozinho e mesmo assim eu nunca olhei pro chão de um restaurante antes. Será que todos os restaurantes têm chão de carpete vermelho com trevos desenhados? Fui embora sem tirar uma única foto de Reims.

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