Monday, 1 September 2014

Os primeiros passos


Apesar de fazer muita coisa errada quando era pequeno, apanhei apenas uma vez na vida da minha mãe. Quando eu era criança, a coisa pior que poderia se fazer era atravessar a BR235 para ir brincar do outro lado da pista (era assim que se chamava a BR). Mas era muito triste não poder ir pro outro lado. Ainda mais por que naquela época passava um carro na BR a cada 5 minutos! E o meu melhor amigo morava exatamente do outro lado. Então, isso era grave e merecia a atenção de todos. Inclusive da minha maior inimiga! Minha maior inimiga era uma velhinha viúva que passava muito tempo na janela e que tinha o prazer de seguir os meus passos na rua pra ir fazer fuxico lá em casa. Dona Eugênia, bastava eu me afastar de casa, ia direto ler seu relatório pros meus pais e minhas primas. Então, uma vez atravessei a pista, não lembro como, e passei a tarde toda brincando com Rivanildo. Não lembro se foi ela que foi fazer fuxico, nem como foi a volta pra casa, mas sei que a coisa foi feia. Um carão daqueles! Mas eu era criança demais e ficaram em mim só os resquícios de algumas falas, que nem sei ao certo se foram ditas de verdade. Mas o fato é que eu sempre fui muito cuidadoso e preciso nas minhas ações. Tenho certeza que calculei precisamente o momento em que poderia atravessar aquela pista, sem que houvesse perigo de ser atropelado. Eu devo ter executado um procedimento muito mais elaborado que muitos adultos que atravessavam aquela pista todos os dias! Mas ninguém acreditaria na precisão de uma criança...

Lembro quando pude, pela primeira vez, atravessar a feira da cidade, para ir da minha casa até a lanchonete dos meus pais. Sempre tinha vontade de andar sozinho em dia de feira, quando a cidade se enchia de gente. E ficava pensando por que eu não poderia atravessar a feira se eu sabia qual era a direção da lanchonete. Então, um dia me foi permitido ir e eu fui triunfante. Sabia que tinha que ir sempre na mesma direção e, houvesse o que houvesse, eu teria que encontrar alguma parede conhecida na cidade. E foi assim. Depois desse dia, não tinha mais medo da feira. Eu era um adulto!

Foi com essa mesma altivez interna que um dia convidei meu primo Jânisson para irmos sozinhos até Aracaju, onde eu iria apresentar o mar a ele. Acho que isso foi logo depois que conheci o mar. Fiquei apavorado com o barulho do mar. Foi a Tutu quem me levou junto com a Jolinda. Chorei desesperadamente. Preferia tomar banho na maré do Bugio onde meus pais tinham casa na época. Hoje a maré do Bugio virou um esgoto. Como pode? Era tudo tão bonito ali... Bem, voltando a historia, alguém conseguiu alcançar a gente antes de tomarmos o ônibus para Aracaju. A cidade era pequena e todos devem ter visto o filho de D. Josefa e Sr. Zequinha no ponto de ônibus para Aracaju sozinho com o primo. Lembro de alguém ter nos levado de volta a casa, mas não lembro de isso ter gerado um grave problema. Acho que foi algo tomado como engraçado na época. Eu não deveria ter mais que 6 anos.

As estradas sempre me encheram de curiosidade, assim como os aviões. Lembro-me de ir levar minha mãe no ponto de ônibus a noite quando ela ia viajar pra Salvador ou Recife e ficar imaginado o que ficava por trás daquelas curvas que faziam o ônibus desaparecer. Às vezes, apontavam-me a direção dessas cidades em placas espalhadas pela BR e eu ficava imaginando como seriam elas e esses lugares tão distantes. As minhas brincadeiras de criança se resumiam a construir pistas, cidades e aeroportos. Construía cidades na areia com pontes, rodoviárias e aeroportos. Inclusive desenhava muitas cidades. No dia em que fui levar minha irmã no aeroporto, numa viagem para o Rio, chorei igual um bicho. Assustei-me muito com o barulho do avião. Ao mesmo tempo, aquilo me atirou ao mistério de entender como alguém poderia entrar naquele negocio estranho e ir voar para uma outra cidade. Era difícil de entender. E eu gostava de entender. Passei a adorar o mistério do avião. O mistério de se viajar. Era fascinado por cartões postais. Fotografias de outras cidades. O desconhecido do mundo sempre me fascinou quando criança e até hoje.

Sunday, 13 July 2014

A copa de aprender

Esse negócio de ter perdido na copa e os discursos nos jornais me lembram os discursos de alunos que não estudam nada e querem, a todo custo, ser aprovados. Ninguém está preparando pra ouvir que errou! A gente não aprendeu ainda que aprender passa necessariamente por você aceitar seu erro, aprender com ele e se fazer mais forte! E nesse processo, a pior coisa é procurar culpados! Vamos lá! Vamos jogar fora o técnico e os jogadores! Como se isso resolvesse tudo. A gente não aprendeu ainda que aprender é doloroso! Que a gente precisa desconstruir as nossas verdades pra construir tudo de novo! Pobre de nós...

Sunday, 8 June 2014

A solução do mundo


Todos as vezes que eu falo contigo tenho a impressão de ir ficando pequenininho, pequenininho. Claro que isso vai além das razões, digamos, físicas.
Você fala de coisas grandes, gigantescas, coisas que demostram o nosso tamanho verdadeiro no mundo. E eu tenho revelada imediatamente a minha impotência diante da imensidão, das probabilidades de mundo.
A dúvida é o que me move.
Não posso saber de tudo, nem posso crer em tudo. Preciso me questionar. Mesmo que nunca chegue a uma resposta razoável. E você me diz que isso é estar em cima do muro. Não é. Pra mim, é a consciência de que a minha verdade é válida apenas no meu mundozinho. E a sua, por ser imensa, também não caberia no meu mundozinho.
É isso que - pra você, talvez ironicamente - me mantem de pé.
Você me fala para a humanidade, não para mim, diretamente. Suas frases são um panfleto a alertar o mundo! Cada uma delas exige de mim uma participação na solução do mundo que eu não sou capaz. Apenas chego a elas via equações diferenciais ordinárias. Matéria inerte.
É pouco?
É muito para o que tenho sido.
Eu sou bem mais simples do que isso tudo.
Peço que tenha cuidado comigo e não atire contra mim aquela sentença que seria a minha condenação eterna. Preciso viver pacatamente, como um bom menino, sem rebeldias ou malcriações. Não me jogue, tão pequeno que sou, tão criança desprotegida que sou, nesse mundo cheio de gigantes, machas intermináveis, sangue nas camisas e monumentos colossais.
Tudo isso que não se equaciona assim tão facilmente. Condições de contorno que me são impossíveis.
Mesmo que isso tudo se chame de vida.

Saturday, 26 April 2014

Carta para alguém


Eu hoje queria te falar tantas coisas. Mas os serviços de telecomunicações estão sabotando esse momento. Então, o único jeito é escrever um e-mail como esse. Cheio de buracos. De espaços onde caberia tantas risadas e as emoções indizíveis. E vou começar dizendo. Dizendo coisas também indizíveis. Vou dizer que tenho medo do que começo a sentir. Sentir foge do meu controle e sempre que meu coração se agita eu perco um pouco a direção, o controle das coisas. E isso me deixa com medo. Mas eu sei que é um medo ilegítimo. Improcedente. Eu estou consciente. E assumo a sentença de que tenho que ter coragem. Estou agora corajoso de novo. E posso até me entregar ao seu charme. Se o telefone tocasse agora eu me renderia completamente. Mas peço que tenha cuidado comigo. Eu pareço forte e frio, mas é tudo uma casca dura que construí ao longo de séculos de existência. Dois milímetros abaixo, escorre sangue quente. Minha fragilidade mora a dois milímetros de mim. E sinto que, quando nos conhecemos, há minutos atrás, imediatamente ultrapassamos esse limite, você e eu. Sinto você dois milímetros abaixo da minha pele, numa intimidade que nunca antes pude ter com alguém. Talvez porque nunca tenha me permitido. Mas o fato é que mesmo sem pedir permissão você entrou dois milímetros em mim. O que faço agora? Também não posso ainda responder ao seu pedido. Até porque eu mesmo não sei até onde vai a sua própria coragem. Apesar de guerrilheiro, sei dos seus medos. Individuais. Igualmente ilegítimos e improcedentes. Mas que esperam o meu respeito. E eu espero. Porque tenho esperança em mim. Por te e por mim. Até que consigamos decidir sob qual pele iremos existir. Parece difícil, eu sei. Mas seria mesmo?

Tuesday, 18 March 2014

Sentimento cristalizado


O anúncio de um terremoto inesperado na frente de um aeroporto ainda com fome, a insistência acusadora de um guia que fala a nossa língua indecifrável, e outras tantas que lhe chegue aos pulmões ávidos de oxigênio, a emoção de se viver num deserto, num deserto anunciado tantas vezes, e cada vez mais inundado de uma poesia ocre, marrom claro, preta, cinza, todo o espectro eletromagnético sendo decifrado igualmente por nossos olhos, tudo, tudo, tudo, medrosos sob a nuvem ameaçadora de um vulcão ativo, e de um cachorro, vários cachorros, todos ricos, e nós, pobres mortais, vagando na aridez de um pensamento enviesado, no átimo de um salto dentro de um olho salgado, lacrimejante, e preso num milagre de se flutuar sobre as águas, ou no susto de se sentir forte no momento em que todos deveriam se afogar, ou de presenciar o íntimo do mundo numa pedra cristalizada antes mesmo do primeiro orgulho humano, orgulho que não interessa à vastidão do mundo, quando esse não tem fim, sobrando, transbordante de uma esperança quase dinamarquesa, branca, incrustada no que chamamos de horizonte, salgada, como o desejo, suor, ligação essa que parece nos acusar de negligencia aos sentidos, aqueles sentidos.