Sunday, 8 June 2014

A solução do mundo


Todos as vezes que eu falo contigo tenho a impressão de ir ficando pequenininho, pequenininho. Claro que isso vai além das razões, digamos, físicas.
Você fala de coisas grandes, gigantescas, coisas que demostram o nosso tamanho verdadeiro no mundo. E eu tenho revelada imediatamente a minha impotência diante da imensidão, das probabilidades de mundo.
A dúvida é o que me move.
Não posso saber de tudo, nem posso crer em tudo. Preciso me questionar. Mesmo que nunca chegue a uma resposta razoável. E você me diz que isso é estar em cima do muro. Não é. Pra mim, é a consciência de que a minha verdade é válida apenas no meu mundozinho. E a sua, por ser imensa, também não caberia no meu mundozinho.
É isso que - pra você, talvez ironicamente - me mantem de pé.
Você me fala para a humanidade, não para mim, diretamente. Suas frases são um panfleto a alertar o mundo! Cada uma delas exige de mim uma participação na solução do mundo que eu não sou capaz. Apenas chego a elas via equações diferenciais ordinárias. Matéria inerte.
É pouco?
É muito para o que tenho sido.
Eu sou bem mais simples do que isso tudo.
Peço que tenha cuidado comigo e não atire contra mim aquela sentença que seria a minha condenação eterna. Preciso viver pacatamente, como um bom menino, sem rebeldias ou malcriações. Não me jogue, tão pequeno que sou, tão criança desprotegida que sou, nesse mundo cheio de gigantes, machas intermináveis, sangue nas camisas e monumentos colossais.
Tudo isso que não se equaciona assim tão facilmente. Condições de contorno que me são impossíveis.
Mesmo que isso tudo se chame de vida.

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