Monday, 30 June 2008

In memoria di me


Já havia visto este filme ha algum tempo atrás, mas hoje à noite resolvi ver de novo. Isso é uma coisa de que gosto de fazer: rever filmes. Na primeira vez, a gente é tomado sempre pela emoção, a segunda vez vem muito mais cheia de explicações, razões, julgamentos... e rever esse filme foi super bom, pois eu consegui exatamente entender as razoes detrás das ações. É um filme lindo, de um diretor novo chamado Saverio Stanzo, e com uma força tão grande. Tudo é silencioso. So os olhares, os pequenos gestos é o que da movimento ao filme. E quem disse que um filme precisa de tantos diálogos? Sabe, minha mãe conta que mesmo antes de ela saber que estava grávida de mim, uma cigana pediu pra ler a mão dela e ela deixou. Então, a cigana disse que ela estava grávida (pra sua total surpresa e descrença) e que ia nascer um menino. Que esse menino ia lhe dar muita felicidade e que ele ia ser padre. Bem, a cigana acertou quase tudo. Quase. É que não consigo viver essas doutrinas. Então, acho que nunca conseguiria ser padre. Apesar de. E talvez eu seja tão silencioso quanto esse filme.

Saturday, 28 June 2008

Estrasburgo


Na verdade eu não quero escrever sobre Estrasburgo, eu quero mesmo é contar que após quase uma semana aqui eu, felizmente, encontrei um apartamento que parece comigo. E aluguei ele com a ajuda do Laurent que foi o meu fiador. Sim, isso também existe aqui. E eu já estou tão sem saco pra esse negocio de fiador, aluguel, caução... mas não tinha outro jeito. Encontrei um apartamento numa rua linda, no último andar de um prédio antigo, construído na época da invasão alemã. E obviamente, eu moro no teto. Literalmente. Quer dizer, pouco abaixo do teto, o que me faz ter de abaixar pra andar por alguns lugares do apartamento. E se você pensa que isso me irrita, está enganado! É o apartamento mais lindo que jamais tive! E, detalhe, não tem nada dentro. Só as minhas malas. Ontem eu o encontrei de manhã cedo e à tarde já era meu. Trouxe as bagagens pra cá, no carro do Laurent. Dormi muito mal, pois ainda não tive condições de limpa-lo, então fico espirrando o tempo todo. Mas hoje cheguei mais cedo do trabalho e fui no supermercado aqui perto comprar coisas úteis. Mas chegando lá (era já 20h30) me dei conta que no Monoprix eles não vendem nada pra limpeza de casa! Meu deus! Eu seja, iria continuar com a casa suja. E foi assim. Mas não resisti e comprei tudo que a França tem de bom pra oferecer nos supermercados, de comida. Logo na entrada, eu me lembrei de dois amigos, o Vitor e a Helena, eles já me disseram uma vez que os supermercados franceses fedem muito! E é verdade! Quando eu entrei no Monoprix logo pensei: algum banheiro está entupido! E que sensação boa foi aquela! A primeira vez que entro num supermercado daqui desde 2006. Mas que nada, é só chegar na seção de queijos e você vai entender o que significa esse cheiro! Tudo podre! E em homenagem a muita gente, mas em especial (se é que isso existe) à Camila, que nem sei se me ouve mais, comprei um Munster (o queijo mais fedido da França). E comi puro com um vinho da Côte du Ventoux, que não é tão bom, mas como eu ainda fico transformando euro pra real, digamos que é algo que eu posso beber atualmente, antes de receber o primeiro salário. Na seção de queijos, vi uma senhora cheirando o Cammenbert e não resisti, perguntei por que ela tava cheirando se o cheiro já é, de qualquer modo, super forte (insuportavelmente podre). Ela me disse que, quanto mais fedido e mais mole o Cammenbert (apodrecido), melhor o queijo. E me fez comprar um que, segundo ela, era o melhor. Ainda não comi. Vou deixar pro fim de semana. O que eu comi mesmo foi o Munster, com pepinos em conserva e o vinho da Côte du Ventoux. Pas mal. Estou de novo na França. Não! Na Alsacea! E não posso dizer que não me sinto em casa aqui. Talvez eu me sinta em casa em qualquer lugar, quoi!

Tuesday, 3 June 2008

O retorno


Acabei de saber pelo Consul francês daqui de Aracaju, Mr Gaujac, que o meu Visto ficou pronto. Desliguei o telefone e fiquei pensando em como a vida é mesmo imprevisível! Eu que me programei completamente pra retornar à Aracaju, e trabalhar na UFS, fiz planos, comecei a procurar apartamento, a ver preços de carros, me familiarizar de novo com os jornais daqui, re-aprender a falar, etc, etc, etc... até comprei uma bicicleta nova! No meio daquilo tudo, soube que não iria ficar aqui em Sergipe porque algum imbecil metido a importante, que não deve saber nada de pesquisa, e que com certeza esqueceu que boas idéias precisam, a qualquer custo, ser aproveitadas – sobretudo num país como o nosso – achou que, apesar dos nossos projetos serem bons, a falta de um diploma seria, deliberadamente, critério irrefutável pra excluir alguém de uma lista de pagamento do governo, que nem era assim tão grande.

Meus amigos, talvez a burocracia seja a pior desgraça da humanidade. Se olharmos atentamente, veremos que foi ela a responsável pela maior parte dos desastres humanos. Não ia ser diferente comigo. A idéia ótima teria sido essa: esse cara ai teve projeto aprovado? Sim. Tem cartas de recomendação e referências importantes? Sim. Tem bom currículo e artigos publicados em revistas importantes? Sim. Tem diploma de doutorado? Não. Então o que você está esperando? Joga fora e me passa outro, rapaz! Claro, é assim que a maior parte dos órgãos públicos funciona (não só órgãos públicos...), é tudo mais fácil, simples. E são de facilidades que se constrói um país como o nosso.

Bem, pra encurtar a conversa, apesar da raiva que sinto ainda por tudo isso que vivi na pele (e que sei que vários dos meus amigos ainda poderão viver), tenho ainda uma vontade enorme de retornar ao Brasil e desenvolver pesquisa aqui. Mas eu sei que não posso me fechar mais pras oportunidades que poderão aparecer em algum outro lugar do mundo. Eu seria bobo. Eu também tenho que usar as mesmas armas deles. Então, mais uma vez estou de passagem marcada pra França. Não somente pra França, mas pra Alsacea, a mesma região que morei da outra vez em que estive por lá entre 2005 e 2006. Agora, quem sabe, poderei viver todas as coisas que deixei pra trás, tudo que quis fazer e não consegui, viagens adiadas, amores perdidos, frases incompletas... isso é uma oportunidade que poucos têm na vida. E é por isso que digo, a vida é mesmo surpreendente, meus amigos!

Num texto que escrevi em francês há algum tempo aqui nesse blog ("Au lieu d’un sandwich à la mortadelle"), eu embriagadamente falava sobre as escolhas que a gente tem na vida, e sobre como estas escolhas podem definir tudo o que vai vir a partir dali. Obviamente, eu não sabia que iria acabar tendo que voltar à França agora, e era exatamente o questionamento contrário que eu abria ali. Pois... eis que recomeço tudo pelo avesso. E é avessado mesmo que eu vou sobreviver.

Wednesday, 28 May 2008

Sexo II


Sexo pra mim nunca foi fácil. Na verdade, sempre tive desde criança muitos medos e expectativas em relação aquilo que sempre se falava nas rodinhas de amigos. Como eu sempre ouvia atento tudo que se me contava até então, fui pego ainda cedo pela pior doença que alguém pode desenvolver dentro de si: os pré-conceitos. Mas isso durou até eu começar a questionar profundamente os meus próprios desejos, os meus próprios sentimentos, os meus próprios prazeres, meus atos, minhas ações, e colocar isso tudo na perspectiva dos outros. Lembro do Caetano no livro "Verdade Tropical" falando sobre a sua descoberta da masturbação. Ele dizia, criança, não acreditar ser verdade que aquele ato era repudiado por Deus, algo sujo, impróprio, se na verdade ele era a sua justificação última de existência. Algo que vinha dele próprio e que podia justificar sua vida. Acho que todos nós, quando criança – ou mesmo já adultos, sentimos a mesma coisa. Só alguns babacas espalhados por ai podem negar esse fato. Ou aqueles que nunca se questionaram sobre seus próprios sentimentos e vivem aprisionados numa vida completamente fora deles próprios.

Essa semana chegou nas minhas mãos, pela minha irmã, um exemplar de "A casa dos budas ditosos" do João Ubaldo Ribeiro. Sempre quis ir ver a peça homônima com a Fernanda Torres, mas era sempre no Canecão, sempre chovia, sempre tinha que comprar ingressos antes, sempre era muito caro, sempre eu tinha algo melhor pra fazer. Bem, o fato é que comecei a ler sobre a vida de luxuria da personagem misteriosa do livro. Sua vida nada convencional, mas nem por isso errada. Na verdade, trata-se de idéias muito simples, mesmo inteligentes. Tem muito tempo que não caio tão feliz numa leitura. E não é porque fala de sexo e liberdade, mas porque aponta uma direção interessante na supressão daqueles preconceitos mais imundos e danosos, sobretudo aqueles com os quais estamos acostumados a vivenciar cotidianamente. Eu queria falar mais sobre isso tudo, mas vou deixar pro "Sexo III". (risos)

Sexo I


Depois que eu descobri a Anaïs Nin, nunca mais deixei de ler tudo que encontrava dela por ai. Um amigo, tempos atrás, me deu de presente "Les petits oiseaux" (Pequenos pássaros), seu livro de contos eróticos, no meio de uma pilha de outros livros. Sempre passava por ele sem nunca me decidir definitivamente por o tirar da pilha e me dedicar a sua leitura. Tampouco sabia que se tratava de um livro erótico! Foi quando, um dia, durante minha aula de inglês com o Mr Jonas – tenho saudades desse cara gente finíssima – surgiu o nome dessa escritora. Logo me veio a idéia de que eu já tinha visto aquele nome em algum lugar. Ao chegar em casa, encontrei feliz o livro dela sob outros exemplares empoeirados.

A história dela é um tanto interessante. Nasceu na França no início do século passado e começou a escrever, aos doze anos de idade, várias pequenas histórias em seu diário; boa parte delas com um apelo erótico imenso. É verdade que ela dava pra todo mundo, mas só deixou que seus diários fossem publicados após a morte do seu primeiro marido. Li não sei onde que foi a sua filha quem descobriu esses diários secretamente guardados sob a cama da mãe. Eu gosto da doçura com que ela trata dessas questões de sexualidade. Acho que foi um bom início pra mim. E recomendo que todos a leiam, sobretudo esse livro. Textos do início do século, mas incrivelmente atuais. Na verdade, o sexo é sempre contemporâneo.

Muito antes de ler a Anaïs Nin, lembro de ter lido a reunião de contos "Onde estiveste de noite" da Clarice Lispector. Ao contrário da Anaïs, a Clarice (como ela mesmo confessou tempos depois) se sentiu obrigada a escrever sobre sexo: tudo se tratou de uma proposta do editor como forma dela ganhar mais dinheiro. Sim, por que se é algo que gera dinheiro no Brasil, é exatamente escancarar o verbo falando sobre sexualidade, e se for da sua própria sexualidade então. Não que a Clarice não saiba falar de sexo – ela sabe muito mais que nós, por exemplo, mas suas frases são sempre cheias ainda de um preconceito escondido e aquela nuvenzinha que ela coloca na frente de cada estória acaba por cansar um pouco. Talvez porque eu esperasse outra coisa dela. Talvez porque eu tenha aprendido pouco a pouco que a gente não precisa estar sempre dentro de tantas nuvens. Talvez porque eu ache que deveríamos mesmo jogar sexo no ventilador. Talvez porque eu tenha percebido logo a enormidade de "lixo católico" que vinha atrás de mim, e que me impedia de pensar. Eu entrei três vezes na Primeira Comunhão, mas não consegui terminar nenhuma delas. Sempre me inquietava bastante ter de decorar aquelas questões idiotas (muitas eu não conseguia entender patavina), e que iam ser usadas pelo padre para dizer que eu poderia comer a hóstia (na minha cabeça, precisávamos da primeira comunhão somente pra comer a hóstia, que eu achava lindo, diga-se de passagem). Mas um dia eu e o Cristiano (amigo do peito de minha infância, morto num acidente de carro ano passado) encontramos restos de hóstias no quintal da paróquia da cidade e resolvemos comer tudo. Depois disso, eu nunca conseguiria dizer pro padre que nunca tinha tocado no corpo de cristo. Aquilo era segredo, só nosso.