São 1h34 da manhã e me parece que o mundo inteiro dorme. Não sei por que razão acordei. Na verdade, apesar de consciente, ainda estou naquele limiar entre estar acordado e dormir. Lento. Num first movement. Quase moonlight sonata (que não devia me fazer chorar)... e então, pouco a pouco, a lua surge entre as nuvens pesadas e o fundo claro das noites de junho. Entra pela janela do meu quarto, me deixando levemente prateado. Clair de lune. Ligeiramente plus vite. Au-dessus de minha cabeça, também sem razões aparentes. O mundo não parece fazer sentido as 1h34 da manhã.
Thursday, 10 June 2010
Thursday, 20 May 2010
Enganos
Vi uma mesa legal que poderia se encaixar perfeitamente na cozinha nova. Como ela me parecia pequena, não precisei nem medir. Estava certo que ia dar certo. Engano. Se ela fosse cerca de dez centímetros menor, teria sido perfeita.
Compramos umas cortinas legais que poderia se encaixar perfeitamente nas janelas dos quartos sem cortina. Nem medimos, porque estávamos certos que ela seria grande o suficiente para sobrar abaixo da janela. Engano. Se ela fosse certa de 10 centímetros mais longa, teria sido perfeito.
Hoje vi uma mesa de jantar para quatro pessoas, redonda, e que caberia perfeitamente na sala de jantar vazia. Dizem que o redondo enjoa e que os quatro lugares são suficientes quando se tem uma festa em casa. Eu gosto do que é redondo, e no caso de uma mesa de jantar, é onde podemos conversar com todas as pessoas sem precisar de grande esforço. Já os quatro lugares não me parece algo sociável, e de fato eu tenho me tornado cada vez menos, apesar de viver cada vez mais rodeado de pessoas. Bem, o fato é que bem poderia ter comprado aquela mesa sem maiores considerações, mesmo sem medir as dimensões da sala de jantar vazia: ela seria perfeita. Mas quis dessa vez evitar o engano. Não garantiria a falta ou a sobra de cerca de dez centímetros no seu diâmetro. Dessa vez, preferi usar mais a matemática ao coração.
Esses enganos acontecem também com as pessoas ao nosso redor. Algumas que parecem perfeitas, mas que na verdade faltam ou sobram em cerca de dez centímetros. E o pior, nesses casos, é não poder usar a matemática.
Compramos umas cortinas legais que poderia se encaixar perfeitamente nas janelas dos quartos sem cortina. Nem medimos, porque estávamos certos que ela seria grande o suficiente para sobrar abaixo da janela. Engano. Se ela fosse certa de 10 centímetros mais longa, teria sido perfeito.
Hoje vi uma mesa de jantar para quatro pessoas, redonda, e que caberia perfeitamente na sala de jantar vazia. Dizem que o redondo enjoa e que os quatro lugares são suficientes quando se tem uma festa em casa. Eu gosto do que é redondo, e no caso de uma mesa de jantar, é onde podemos conversar com todas as pessoas sem precisar de grande esforço. Já os quatro lugares não me parece algo sociável, e de fato eu tenho me tornado cada vez menos, apesar de viver cada vez mais rodeado de pessoas. Bem, o fato é que bem poderia ter comprado aquela mesa sem maiores considerações, mesmo sem medir as dimensões da sala de jantar vazia: ela seria perfeita. Mas quis dessa vez evitar o engano. Não garantiria a falta ou a sobra de cerca de dez centímetros no seu diâmetro. Dessa vez, preferi usar mais a matemática ao coração.
Esses enganos acontecem também com as pessoas ao nosso redor. Algumas que parecem perfeitas, mas que na verdade faltam ou sobram em cerca de dez centímetros. E o pior, nesses casos, é não poder usar a matemática.
Saturday, 15 May 2010
Bulletin Needcompany - Bruxelles
Queridos
amigos,
Acabamos
de completar uma longa turnê. Consulto as anotações no meu diário.
Moscou:
O embaixador belga e sua simpática esposa nos receberam calorosamente. Para
sobreviver no mundo cruel da diplomacia, eles se armaram de um humor afiado
como uma navalha. Seu assistente angolano já não usa mais o metrô. Ele já não
agüenta mais o grito dos macacos. Nós encenamos “La chambre d’Isabella”
(O quarto de Isabella), um espetáculo sobre
a África. Nenhum grito de macacos dentro da sala. Mas também nenhum negro na
sala. Fomos nomeado para o prêmio Stanislawski, e somos gratos ao público russo. Na
entrada do metrô, um homem vende seus rins. Os russos bebem como se suas
vidas dependessem disso.
Bogotá:
2,2 milhões de pessoas refugiadas em seu próprio país. Diante da porta do nosso
hotel existem soldados dia e noite. O diretor do festival disse que a
Colômbia está eternamente em guerra. Encenamos
“La maison des cerfs” (A casa dos alces), uma peça sobre a guerra. Ovação de pé. Os colombianos dançam como se suas vidas dependessem disso.
Granada:
Eu li em um folheto sobre Alhambra que no século VII, os católicos não
suportavam que as mulheres muçulmanas fossem tão liberais. Achavam
aquilo ameaçador. As coisas podem mudar. Encenamos
no teatro de Alhambra, um vulcão entrou em erupção e não podemos voltar a tempo
para o norte. Restou-nos apenas ir ver uma tourada. El silencio de la
Maestranza. Os espanhóis se calam, como se suas
vidas dependessem disso.
Marselha:
Uma tarde relaxada de domingo. Jogamos um torneio de bocha contra o
público maravilhoso de Merlan. Pastiche e
sardinha na praia. Que vida de merda. E Grace que a leva. Como sempre. No retorno ao Hotel à noite, Julien, o nosso wandering
star, encontrou uma puta desmaiada e em sangue. Ele chamou uma ambulância,
recebeu gás lacrimogêneo na cara e foi espancado. Encenamos “Cette porte est
trop petite (pour un ours)” (Essa porta é muito pequena [Para um urso]), um
espetáculo sobre o poder da imaginação, o tipo de espetáculo que nos coloca de
bom humor.
No táxi
que nos levava para a estação de trem, o taxista perguntou o que estava
acontecendo na Bélgica, e se os flamengos eram realmente tão racistas. Fiquei
pensativo e lembrei de um noticiário na TV onde uma apresentadora flamenga
anunciava entusiasmada algo sobre o passado colonial do escritor flamengo da
esquerda burguesa Geeraerts Jef. Eu ainda vejo o velho dizer, muito orgulhoso,
que ele abusou de seu poder na colônia belga. Ele amava acima de tudo
distribuir pauladas e transar. Não existe nenhum flamengo que esteja
interessado em ver no horário nobre um cara como aquele. Ele acha que
provavelmente não é o que ele disse. É a desculpa habitual. Vai explicar isso para
o taxista. O TGV está em greve. Os franceses estão em greve, como se suas vidas
dependessem disso.
Bruxelas:
volta para casa, li um jornal flamengo. Parlamento da Bélgica, o Vlaams Blok,
Leão Flamengo canta. Os flamengos estão reclamando, como se suas vidas
dependessem disso.
Atenciosamente,
Wednesday, 5 May 2010
Brasilia
Brasília é construída na linha do horizonte. Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado. Se eu dissesse que Brasília é bonita veriam imediatamente que gostei da cidade. Mas se digo que Brasília é a imagem de minha insônia vêem nisso uma acusação. Mas a minha insônia não é bonita nem feia, minha insônia sou eu, é vivida, é o meu espanto. É o ponto e vírgula.
C.L.
Monday, 3 May 2010
No avião
A aeromoça acabou de me oferecer água e eu recusei. Tenho uma dificuldade enorme de saber quando uma aeromoça me faz uma pergunta ou quando ela me ordena. Elas são diabolicamente sorridentes e silenciosas. Eu nunca saberia dizer o que se passa na cabeça delas quando do meu lado falam: senhor, suco ou refrigerante? E eu sempre peço cerveja. Às vezes, sou atendido, às vezes não. Hoje, por exemplo, não vou pedir nada. Prefiro ficar com a agenda numa mão e a caneta na outra escrevendo, e olhando as pessoas entrando no avião. Alguns parecem em casa. Por exemplo, agora a pouco uma moça bonita, alta, e elegante na maneira de movimentar os braços com desenhos singelos no ar, falou tranquilamente para o rapaz da janela: moço, esse é o meu lugar. Como quando dizemos durante o jantar pra nosso irmão: esse é meu lugar! O moço, atrapalhado, com uma camisa de algodão azul desbotado, pediu desculpas e saiu procurando o numero do seu acento no bilhete amarrotado. Provavelmente se enganou. Ela sentou, como para marcar o seu lugar, e logo depois levantou para guardar a pequena bolsa de couro marrom. O que a faria pedir de volta o seu lugar ao rapaz uma vez que o avião está vazio? Será que ela era uma virginiana típica, ou apenas queria se fazer observada pelos passageiros ao seu redor? Como uma espécie de autoridade, de movimento involuntário de uma mulher interessante que passa a mão nos cabelos quando se sente observada por um homem? Ou ela teria marcado sua passagem há dois meses atrás e se sentia agora incomodada de viajar em outro acento, no corredor? Talvez ela fosse uma passageira que sabe todos os lugares mais confortáveis do avião, onde se pode estirar mais as pernas, etc, e não iria perder jamais a oportunidade de sentar ali. Ou simplesmente ela gostaria de acenar uma última vez para algum amante quando o avião estivesse indo embora, marcando sua partida sem volta, e talvez chorar escondida, abafada pelo barulho da turbina, podendo enfim soluçar sem chamar a atenção dos passageiros do lado, como, aliás, um dia eu já fiz. Voar pra mim sempre foi como entrar por obrigação numa montanha russa. Todas as vezes que eu entrei num avião, minha vida sempre estava se transformando. O que eu sempre gostei foi olhar os aviões no ar e pensar sobre as histórias possíveis daquelas pessoas que passam por cima de mim sem nem me notar. Pode parecer besteira, mas sempre gosto dessa sessão das revistas de companhias aéreas que pergunta por que as pessoas estão viajando naquele momento. Obviamente que eles deveriam aproveitar mais essas histórias, mas mesmo assim gosto delas. Sempre gostei de comprar passagens de avião e não viajar. Obviamente, fazia isso apenas com as passagens baratas na Europa. E sei que esse desbunde vinha muito do fato de eu poder decidir entrar ou não no avião, sem que ele decidisse por mim. Ou que talvez apenas a força absurda que gasto para comprar um bilhete de avião já fosse mais que suficiente para justificar minha desistência poucas horas antes do vôo. Claro que isso deve ser patológico. Mas é que no avião tudo é veloz demais e eu nunca fui veloz. Digo isso porque o piloto acabou de anunciar que estamos entrando no Distrito Federal. E eu não escrevi nada de útil ainda. Vou parar um pouquinho porque sei que a nossa aeromoça vai me ordenar a guardar a agenda e a caneta. (Aliás, caneta deveria ser um objeto proibido da cabine! Pode-se matar com ela!)... o avião parou enfim e as pessoas nervosamente e instantaneamente se levantam na ânsia de serem salvas. Aliás, não houvesse essa pseudo-fineza nas pessoas que normalmente viajam de avião e a saída do avião seria pior do que a entrada num trem de Belford Roxo às sete da manhã sentido Rio de Janeiro. Prefiro ficar aqui sentado, esperando todos saírem para, com uma calma toda falsa, sair então para novamente ter que voltar no dia seguinte.
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