A aeromoça acabou de me oferecer água e eu recusei. Tenho uma dificuldade enorme de saber quando uma aeromoça me faz uma pergunta ou quando ela me ordena. Elas são diabolicamente sorridentes e silenciosas. Eu nunca saberia dizer o que se passa na cabeça delas quando do meu lado falam: senhor, suco ou refrigerante? E eu sempre peço cerveja. Às vezes, sou atendido, às vezes não. Hoje, por exemplo, não vou pedir nada. Prefiro ficar com a agenda numa mão e a caneta na outra escrevendo, e olhando as pessoas entrando no avião. Alguns parecem em casa. Por exemplo, agora a pouco uma moça bonita, alta, e elegante na maneira de movimentar os braços com desenhos singelos no ar, falou tranquilamente para o rapaz da janela: moço, esse é o meu lugar. Como quando dizemos durante o jantar pra nosso irmão: esse é meu lugar! O moço, atrapalhado, com uma camisa de algodão azul desbotado, pediu desculpas e saiu procurando o numero do seu acento no bilhete amarrotado. Provavelmente se enganou. Ela sentou, como para marcar o seu lugar, e logo depois levantou para guardar a pequena bolsa de couro marrom. O que a faria pedir de volta o seu lugar ao rapaz uma vez que o avião está vazio? Será que ela era uma virginiana típica, ou apenas queria se fazer observada pelos passageiros ao seu redor? Como uma espécie de autoridade, de movimento involuntário de uma mulher interessante que passa a mão nos cabelos quando se sente observada por um homem? Ou ela teria marcado sua passagem há dois meses atrás e se sentia agora incomodada de viajar em outro acento, no corredor? Talvez ela fosse uma passageira que sabe todos os lugares mais confortáveis do avião, onde se pode estirar mais as pernas, etc, e não iria perder jamais a oportunidade de sentar ali. Ou simplesmente ela gostaria de acenar uma última vez para algum amante quando o avião estivesse indo embora, marcando sua partida sem volta, e talvez chorar escondida, abafada pelo barulho da turbina, podendo enfim soluçar sem chamar a atenção dos passageiros do lado, como, aliás, um dia eu já fiz. Voar pra mim sempre foi como entrar por obrigação numa montanha russa. Todas as vezes que eu entrei num avião, minha vida sempre estava se transformando. O que eu sempre gostei foi olhar os aviões no ar e pensar sobre as histórias possíveis daquelas pessoas que passam por cima de mim sem nem me notar. Pode parecer besteira, mas sempre gosto dessa sessão das revistas de companhias aéreas que pergunta por que as pessoas estão viajando naquele momento. Obviamente que eles deveriam aproveitar mais essas histórias, mas mesmo assim gosto delas. Sempre gostei de comprar passagens de avião e não viajar. Obviamente, fazia isso apenas com as passagens baratas na Europa. E sei que esse desbunde vinha muito do fato de eu poder decidir entrar ou não no avião, sem que ele decidisse por mim. Ou que talvez apenas a força absurda que gasto para comprar um bilhete de avião já fosse mais que suficiente para justificar minha desistência poucas horas antes do vôo. Claro que isso deve ser patológico. Mas é que no avião tudo é veloz demais e eu nunca fui veloz. Digo isso porque o piloto acabou de anunciar que estamos entrando no Distrito Federal. E eu não escrevi nada de útil ainda. Vou parar um pouquinho porque sei que a nossa aeromoça vai me ordenar a guardar a agenda e a caneta. (Aliás, caneta deveria ser um objeto proibido da cabine! Pode-se matar com ela!)... o avião parou enfim e as pessoas nervosamente e instantaneamente se levantam na ânsia de serem salvas. Aliás, não houvesse essa pseudo-fineza nas pessoas que normalmente viajam de avião e a saída do avião seria pior do que a entrada num trem de Belford Roxo às sete da manhã sentido Rio de Janeiro. Prefiro ficar aqui sentado, esperando todos saírem para, com uma calma toda falsa, sair então para novamente ter que voltar no dia seguinte.
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