Saturday, 20 March 2010

Tapajônico-marajoara-rupestre


Nunca imaginei que pudesse descobrir, estando no Brasil e em pleno verão, um lugar onde todos dizem que é inverno. Sinto muito informar a vocês (que sabem mais do que eu que a linha do equador passa um pouquinho mais acima daquela cidade): agora é inverno em Belém. Sim, isso mesmo. Aquele povo já se sente no hemisfério norte! Aliás, a comida daquele lugar não deixa nada a desejar aos países mais chiques do primeiro mundo austral. Eu, que não gosto de ir ao dentista, adorei comer jambu e ficar com a boca toda dormente. Sensação maluca. Tão maluca quando sentir Belém, tão rica, tão suja de limo e lixo, tão molhada dentro nas nossas roupas, tão simpática nas nossas conversas com taxistas e atendentes, tão inóspita com aqueles espaços tão grandes entre as coisas... ficamos (não por acaso) num hotel francês no coração de Belém de onde íamos a pé pra vários lugares, quando a chuva deixava, claro. O aeroporto de Belém é legal com um nome interessante, Val de Cans. E a visão primeira da floresta impressiona mesmo! O tempo todo em Belém eu procurei o que chamamos de conforto. E não é que eu seja burguês, mas é que aquela cidade nos deixa completamente nus no meio da selva e em dia de chuva, como índios. É, na verdade, uma cidade pra não se voltar mais. Mas é também uma cidade pra não se esquecer nunca mais. Prefiro ficar com ela guardada aqui na cabeça. Já minha irmã, voltaria várias vezes pra lá, e tiraria ainda mais e mais fotos das comidas expostas no Ver-o-Peso.

post-scriptum: sei que a música desse vídeo não tem uma relação evidente com essa viagem, mas eu asseguro que ela tem sim, uma liberdade de ter sido feita por esses jovens californianos que não sabem absolutamente nada sobre aquela cidade tapajônica-marajoara-rupestre.


Friday, 19 March 2010

Minha primeira dor de cotovelo


Ontem vendo o filme “Up in the air” não pude deixar de sorrir com a cena em que o personagem do George Clooney vai apaixonado e de surpresa na casa da personagem da Vera Farmiga e se dá conta de que ela tem outra família. A minha primeira namorada foi arranjada. Digamos, dancei uma noite de São João com uma menina. Foi a primeira vez que pedi alguém pra dançar e dancei. Quer dizer, mais tropecei do que propriamente dancei. O fato é que no dia seguinte comentei com a empregada lá de casa, a Simone, que tinha dançando com a Silvana e que a achava super interessante. A Simone, curiosa como ela só, e sendo amiga da outra, foi perguntar sobre isso e voltou no dia seguinte me falando que a Silvana me achava super legal, etc. Estava com 12 anos e precisava saber do que se tratava namorar. E foi ai que decidi namorar com a Silvana. O primeiro encontro foi então arranjado pela Simone no lugar onde ela trabalhava ajudando sua irmã. Se não me engano, era segunda de manhã. Ficamos numa conversa mole e quando estava indo embora, achei que deveria testar meu primeiro beijo de língua. Ao contrário dos meus amigos, eu nunca tinha ensaiado um beijo antes e fiz exatamente como ouvia se dizer que era: sempre aprendi bastante ouvindo as pessoas. Até hoje eu guardo uma lembrança super forte desse beijo. Porque antes de terminar o beijo, que para mim durou séculos, comecei a ficar tonto a ponto de tombar pro lado e sair titubeando pela porta a fora. Era uma confusão de carne úmida, cheiros, pecados, provações, alegrias, mistérios, descobertas, liberdades, que me fizeram perder a força nas pernas. Completamente. E quando penso na minha primeira noite de sexo, sinto uma desmistificação tamanha... porque nada foi tão mágico e atraente quanto aquele primeiro beijo na boca. Só que eu era inexperiente nesse negócio de namoro e sempre fui meio desligado das obrigações e protocolos a seguir. Então, acabei passando dias sem ir namorar com a Silvana. No dia que resolvi ir, comprei um presentinho – não lembro mais o quê – e ao chegar a casa dela, fui recebido no portão friamente. Ela foi super sincera e entre magoada e ingênua, me falou que não estávamos mais namorando e que, aliás, já tinha arrumado um outro paquera para me esquecer, uma vez que eu também a tinha esquecido por tantos dias. Fiquei com o presente na mão meio idiota sem saber o que dizer. E voltei pra casa pelo caminho, chorando um choro seco e sem razão que me deixou sentir a força daquilo que as pessoas chamavam de traição. Sim, eu me sentia traído, ainda que esse sentimento fosse injusto. E era. Ontem, vendo o filme do Jason Reitman (o mesmo que fez Juno e Thank you for smoking), revivi essa cena, e não pude deixar de rir da minha meninice. O fato é que até hoje eu sou tão criança pra esses assuntos de coração que sempre me pego rindo pelos cantos com a minha total ingenuidade. Não consigo ouvir aquela música do chato do Caetano sem pensar que meu coração também nunca se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer...

Monday, 15 March 2010

O milagre das folhas


Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes isso me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que só de ouvir falar? Pois já cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação se quebraria.” Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas. Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou daqueles que rolam pedras durante séculos, e não daqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer – seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo, capacidade de projetar no campo alucinatório as imagens inconscientes.
Milagre, não. Mas as coincidências. Vivo de coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando em nada. Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhares de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo. Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.

Clarice Lispector

Monday, 8 March 2010

Uma vida sem barriga


Todo mundo vem me enchendo o saco aqui em casa. Dizem que estou neurótico com esse negocio de não engordar, de não ter barriga, etc, e por isso não como mais como antes. E de fato acho que estou mesmo meio neurótico. É que tive um choque muito grande quando voltei pra cá. Às vezes, sentado numa mesa de um restaurante, ou na praia, ou onde quer que eu esteja, fico abismado com o fato de não encontrar sequer uma pessoa magra. Não lembro de ter visto tantos gordos assim no Rio. Será que é um problema local? Na verdade, gordura não é saúde, nunca foi e nunca vai ser. E me assusto com o fato de ninguém se dá conta disso por aqui. Meus amigos de infância estão todos gordos e maltratados. Não fazem exercícios, e nem pensam em tentar levar uma vida mais saudável. E isso é geral. Quando pedimos um suco num restaurante aqui é sempre preciso dizer pra não colocar açúcar, caso contrário, vamos ter duas sobremesas. Outro dia um amigo me levou pra comer um bolo de chocolate na Casa Alemã (que é super famosa por fazer bolos e doces legais) e fiquei triste com o que recebi na mesa. Açúcar puro. Parece que não se faz bolo de chocolate amargo sem açúcar aqui em Sergipe. Bem, minha caipirinha sempre foi sem açúcar, o que gera sempre discussões de se isso ainda continua sendo uma caipirinha ou apenas limão com cachaça. Pra mim continua caipirinha, igual um bolo de chocolate sem açúcar que continua sendo um bolo de chocolate.

Wednesday, 3 March 2010

Letras, vírgulas e pontos


Tenho precisando de uma revolta interna urgente. Não aquela que trás a indignação pura e tola, mas aquela outra que nos faz outro. Isso parece o único meio pelo qual eu poderia ganhar alguma coisa. Como uma liberdade qualquer. Essa liberdade que eu sempre tive orgulho de possuir nas mãos e que, no entanto, sempre me foi alheia. Tão alheia quanto uma mentira na qual fazemos questão de acreditar. Acreditar tristemente. E tudo isso, pra quê? Na verdade, despejo toneladas e toneladas de escombros sobre as minhas vontades mais infantis porque não sei a força que elas têm. Nunca soube. Nunca me permiti senti-la. E toda essa constatação tardia não significa que estou sendo cruel comigo mesmo, que me flagelo todos os dias assim que acordo me ajoelhando sobre espinhos. Não. Somente agora depois de ler um e-mail formado de frases como qualquer outra, cheio de letras, vírgulas, pontos, etc., somente agora tudo o que tenho feito de mim explodiu na minha frente como uma bomba, num terrorismo direcionado a minha pessoa. Talvez não seja uma bomba, mas apenas um espasmo de alguma coisa que não sei ainda o que é. Não deveria escrever esse texto agora porque faltam vinte e seis minutos pro meio-dia, estou com fome, preciso assinar folhas e mais folhas de papel com pedidos urgentes de pessoas que precisam de mais outra mentira nas mãos, etc... e tudo isso é tão pouco que eu sou obrigado a baixar a cabeça e tentar conter um riso no canto da boca. Mais ainda porque nunca pensei que uma frase formada por letras, vírgulas e pontos pudesse explodir.

Tuesday, 9 February 2010

No meu reino


Sempre fui quadrado, com arestas que cortam os desavisados. Criei um reino para ser meu próprio súdito. E me alegra bastante guardar os grossos portões de ferro que cercam esse reino. Sou eu quem diz a hora do banho dos cavalos. Sou eu quem prova e serve o vinho na hora do jantar. Sou o primeiro a me vestir com a armadura de bronze feita sobre encomenda. Mas o que não conseguiria admitir, seria um dia me tornar meu próprio rei. Porque sei que minha alma é leve demais para ordenar. Para mim, a mesa se ordena livremente quando ponho os pratos nos seus lugares e quando digo onde os convidados devem sentar. A minha ordem vem das mãos, fisicamente. E se eu sempre corto a carne em cubos de exatos dois centímetros de lado, não é porque eu seja ordenado, mas porque o mundo parece se ordenar sozinho ao meu redor.