Wednesday, 3 March 2010

Letras, vírgulas e pontos


Tenho precisando de uma revolta interna urgente. Não aquela que trás a indignação pura e tola, mas aquela outra que nos faz outro. Isso parece o único meio pelo qual eu poderia ganhar alguma coisa. Como uma liberdade qualquer. Essa liberdade que eu sempre tive orgulho de possuir nas mãos e que, no entanto, sempre me foi alheia. Tão alheia quanto uma mentira na qual fazemos questão de acreditar. Acreditar tristemente. E tudo isso, pra quê? Na verdade, despejo toneladas e toneladas de escombros sobre as minhas vontades mais infantis porque não sei a força que elas têm. Nunca soube. Nunca me permiti senti-la. E toda essa constatação tardia não significa que estou sendo cruel comigo mesmo, que me flagelo todos os dias assim que acordo me ajoelhando sobre espinhos. Não. Somente agora depois de ler um e-mail formado de frases como qualquer outra, cheio de letras, vírgulas, pontos, etc., somente agora tudo o que tenho feito de mim explodiu na minha frente como uma bomba, num terrorismo direcionado a minha pessoa. Talvez não seja uma bomba, mas apenas um espasmo de alguma coisa que não sei ainda o que é. Não deveria escrever esse texto agora porque faltam vinte e seis minutos pro meio-dia, estou com fome, preciso assinar folhas e mais folhas de papel com pedidos urgentes de pessoas que precisam de mais outra mentira nas mãos, etc... e tudo isso é tão pouco que eu sou obrigado a baixar a cabeça e tentar conter um riso no canto da boca. Mais ainda porque nunca pensei que uma frase formada por letras, vírgulas e pontos pudesse explodir.

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