Não sei se foi a poeira da estrada de terra. Se foi o balanço do carro, a neblina espessa da madrugada afora pela pista vazia. Se foi o paredão amarelado do final do dia. O cansaço dos finais de tarde depois das trilhas. A mata fechada. Os chapadões na imensidão do horizonte. Se foi a agua gelada quase a arrancar fora nossas orelhas, ou o jeito atrevido de olhar sem medo uma cachoeira de fumaça a quatrocentos metros de altura. A companhia de um amigo quase criança que tenho e que além de tudo é quase um bruxo. E hoje só quer comer folha. Se foi o tal de pastel de palmito de jaca frio e saboroso, ou um geladinho. Se foi aquela louca da lanterna a vagar pela cidade, ou as situações mais embaraçosas que nem se pode contar. Ou se foi o tempo que era outro. O estourar do espumante à meia-noite. O grilo a cantar junto com o sapo e todos os passarinhos do mundo. O frio da noite. O calor do dia. A falta de carne. A pizza com mel de pimenta. As tatuagens. Uma turmalina negra no pescoço. O não saber meditar. A vida sem celular. O caminho sem luz de toda noite até chegar a vila. O céu de estrelas incontáveis. E o mundo a me olhar. Tudo isso me fez ficar apaixonado pelo Vale do Capão. É um lugar que preciso voltar urgentemente.

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