Saturday, 17 March 2012

O baú da macumbaria



Ninha, que não é tão pequena assim como o nome indica, é uma das figuras mais imponentes aqui em casa. Desde que ela chegou para trabalhar aqui, ajudando na cozinha, nunca mais o nosso rádio teve sossego: fica ligado o dia todo! Ela diz que nunca conseguiria viver aqui sem um rádio funcionando. Não suportaria o silêncio da cozinha. O fato é que ela é uma pessoa alegre no último, com muita energia, simplicidade e espontaneidade. Tudo para ela tem um nome específico, criado sob medida para designar aquilo que ela acredita estar vendo. Por exemplo, ela só me chama de doutor.
- Doutor, cheguei! grita alto todo sábado de manhã, que é o único dia que nos encontramos, logo depois de entrar em casa.
Minha prima, que já tem o apelido de Neném, e que não deveria receber mais nenhum, foi devidamente descrita como Branca de Neve, por passar muito tempo no seu quarto no segundo andar da casa trabalhando (ela é professora!). E se perguntamos:
- Ninha, onde está Neném? Ela imediatamente responde:
- Está nos aposentos dela, fazendo sabe-se deus o quê!
Meu irmão, Vavau, quando vem pra cá, adora ficar conversando com os amigos no bar de Neguinho. E se perguntamos:
- Ninha, sabe de Vavau? Já tá na hora de almoçar! Ela responde imediatamente:
- Ele deve estar no Comitê do Negão.
Preciso explicar que Vavau é cabo eleitoral de João Alves, ex-governador de Sergipe, que é apelidado pelos sergipanos de Negão, e não sei de onde ela tirou essa ideia de que o Bar de Neguinho é o local de encontro dos cabos eleitorais de João Alves. Meu irmão não tem juízo, nem ela, nem Neguinho...
Até as pessoas que vêm passar as férias aqui vão embora com apelidos. A Fernanda foi embora com dois pseudônimos: “Sargento” e “Stephany do Cross Fox”. O Guilherme, namorado da minha irmã, de “Bob Esponja”. O meu primo, de “Bicicleta-do-cão-fazer-cobrança”.
Tem muito mais. Minha mãe transformou um tanquinho de lavar roupas velho num local para guardar ferramentas, e toda vez que precisamos de alguma coisa, dizemos:
Ninha, sabe onde está a chave de fendas? No que ela responde:
- Só pode estar no Baú da Felicidade!
Eu aprendi a guardar os meus tempero, conservas, e novidades desse tipo que trago de outros países, quando viajo, no armário de mais difícil acesso da cozinha. O que fica em cima do freezer. Assim o meu material está sempre seguro! Então, outro dia eu estava fazendo uma comida nova, uma receita diferente, e pedi distraído:
- Ninha, você pode pegar a semente de papoula? E ela espontaneamente respondeu:
- Ela está onde? no Baú da Macumbaria, é?
Não precisa nem dizer que eu quase morri de rir, né?

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