Quando eu acabei de escutar essa música pela primeira vez, fiquei com vontade de levar o Scott Ramon pra casa e cuidar dele. Quase baixei um filme com ele, daqueles bem fraquinhos. Quase disse a ele para tomar cuidado com essa mistura de festa e álcool para falar de algo tão mais profundo. Fiquei com vontade de encontrar a Anne e dizer: vamos pegar a bicicleta agora e vamos ao Molodoi! Tive vontade de beijar o Emmanuel, que sempre sabe como me tocar em termos de músicas, e sempre me envia da França coisas tão parecidas comigo... quase comprei a primeira passagem pra Nova York, sem visto, como um clandestino que sou, ao invés. Tive vontade de dizer pra meus amigos mais radicais ouvintes exclusivos da pura MPB que o mundo não é só isso, muito menos aquilo! E que o fato de uma música não ser escrita numa língua falada por nós é muito pouco para se dizer: não gosto. Quase abri o Bourgogne de 2004 que tenho guardado há tanto tempo aqui em casa, só pra celebrar o fato de todos sermos tão... como no clip do Kid: vulneráveis ao mundo. Pensei tanto na Andrea: preciso estar dois minutos com ela novamente, e urgentemente. Lembrei tanto de uma amiga linda que trabalha com cinema que possivelmente não iria gostar do clip; porque é muito mal feito, diria. E eu gosto tanto de ouvi-la falando. Quase continuei minhas leituras do Thomas Mann, deixando as minhas aulas pra trás. Quase convidei aquele amigo pra seguir comigo. Quase fui fulminado pela orgia de ser. Quase queimei todos os meus discos e fui para uma festa no clube de Areia Branca sábado à noite. Porque o Capitão Cook em Aracaju também é muito pouco para o que preciso. Quase me convenci de fazer alguns exames que um médico me passou há uns tempos atrás, e que acabei protelando ironicamente. Como se essa ironia tivesse mesmo direção. Quase não me curei daquela ferida primeira e aguda. Quase te perguntei o que você sabe sobre felicidade. Quase te respondi o que sei sobre os sonhos.
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