Tuesday, 1 July 2008

Os corvos




Hoje eu acordei cedo e fiz faxina no apartamento que já estava agonizante. Ficou tudo cheirosinho e limpinho. Depois resolvi ir à feira. Uma canadense amiga da Helena, super gente fina, me informou da existência dessa feira livre todos os sábados de manha. Na verdade, hoje eu acordei super tarde. As janelas aqui do quarto não tem cortinha e quando o sol sai eu acordo: é meu despertador natural! O problema é que o verão esta no auge aqui, então o sol nasce muito cedo! Foi por isso que deu tempo eu fazer toda a faxina e ainda ir à feira. Fui de bicicleta, lógico. Não gasto mais um centavo com tramway, ônibus... nada! Acho que até já paguei a bicicleta desse jeito! Sim, porque comprei de segunda mão! Mas devo confessar que ela faz um barulho da desgraça. Passo na rua e o povo deve ficar pensando: lá vem o homem da lata velha! Então é isso, bicicleta pra todo lugar, só pra ir ao hipermercado é que preciso pegar o tramway porque é meio longe, mas o principal problema é que volto sempre muito carregado e não da pra trazer tudo na bike. Na feira de hoje eu não comprei muita coisa. O CNRS ainda não me pagou desde que eu cheguei aqui (é pior do que a CAPES e o CNPq!), então tenho que economizar muito. Mas não pude deixar de comprar cereja e champignons frescos. Queria comprar folha de vinha à moda árabe (não sei se traduz assim...), mas não tinha. Fica pra próxima semana. Lembro que achei folhas de vinha no Zona Sul do Rio e levei lá pra casa em Sergipe pra que todos provassem no Natal: foi uma festa, quase ninguém gostou, e teve gente que saiu correndo pro mato vomitar... hahaha! Mas eu gosto. Se bem que é verdade que a daqui é muitas vezes melhor. E isso é uma coisa que me intriga aqui. Tudo que você compra do mais barato, chega a ser ainda mil vezes melhor que o razoável no Brasil. Por exemplo, hoje comprei uma faca de corte fino que no Brasil seria caríssima e aqui foi a mais barata que achei. Daquelas que vem com nome do supermercado, sabe? Pois. E assim as coisas vão indo. Hoje achei uma padaria aqui perto que é uma coisa maluca. Nunca gostei de croissant puro, mas nessa padaria eles fazem um croissant com manteiga que vira um caso de polícia pra tomar com café forte. E por falar em policia, fiz minha barba hoje, e acho que assim não sou mais um alvo fácil dos policiais franceses. É impressionante a quantidade de vezes que já vi aqui pessoas (geralmente com cara de estrangeiro) sendo parado pela polícia. E como eu sou marroquino, tenho que me preparar pra correr! Ainda hoje, sentei na grama pra ler o programa de um cinema legal daqui e deixei minha bicicleta do lado. Logo chegou um rapaz falando em árabe comigo... depois entendi que ele estava perguntando se podia deixar a bicicleta do lado da minha... depois ele falou em francês, obvio. Às vezes eu fico pensando onde é que eu fui me meter. Porque acho que já esta virando uma coisa violenta mesmo, sabe? Todas as idéias fascistas, muito claras. Falava outro dia com o Leo, amigo da Pascale sobre isso. E ele me confirmou que desde que nasceu nunca foi parado pela polícia. Ele tem uma cara de alsaciano-alemão típica e isso, infelizmente, explica tudo. E o pior é que são policiais à paisana. Quando você menos espera tem um do seu lado dizendo: polícia de segurança francesa, seus documentos, por favor. Ainda não aconteceu comigo, mas sei que logo vai acontecer. Azar o deles. Sarkozy e suas idéias. Na verdade, tem muita gente que apóia a extrema direita, mas que nem se dão conta do que isso significa, sabe? Bem, vamos ver onde isso vai acabar. E, acabado mesmo a gente fica quando eu abro minha geladeira. Um fedor dos diabos. São os queijos, respondo pra mim mesmo. E ainda acrescento: a geladeira de todo francês fede, então isso não deve ser ruim. É isso. E eu começo a me acostumar de novo com os cheiros. O impacto deles sobre mim foi muito menor dessa vez. Já até voltei a sentir uma preguiça enorme de tomar banho quando o dia esfria um pouco mais. E confesso que já passei um dia sem tomar banho. Sim, eu sei, estamos no verão. Não se preocupem, no inverno a semana vai ser a seco. Pas de problème! O problema mesmo apareceu foi quando eu entrei no museu pra ver uma exposição da arte em Strasbourg da idade média. Foi um choque ver tanta cor junta. Tudo super colorido, berrante, até pra meus olhos de daltônico. E talvez tenha sido isso que me deixou de boca aberta. Depois de entrar nas igrejas góticas por aqui, onde tudo é escuro, sombrio, com cheiro de morte, pecados, almas voando, sofrimentos terríveis, as cores fortes daquelas pinturas me chocaram. Não esperava isso. O povo da idade média é um povo muito engraçado... imprevisíveis. Sabe, tem uma ponte aqui que se chama a ponte do Corvo, ou passagem do Corvo, não lembro direito, onde na idade média os sacerdotes especialistas em reconhecer os bruxos colocavam em pratica suas técnicas otimizadas. Jogavam todas as acusadas de bruxaria no rio, fechava as comportas e abaixava a ponte por um tempo determinado. Obviamente as pessoas não tinham como respirar. Então, passado um tempo, eles levantavam de novo a ponte e, aquelas acusadas que estavam vivas deviam ser queimadas imediatamente na praça, pois eram, com certeza, bruxas. E as que morreram, com certeza não eram bruxas... idéia genial essa, não? Por hora, eu prefiro passar por cima dessa ponte, na via das duvidas.

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