Li o
tal livro, mas nada me foi útil porque eu sempre precisei de outra coisa. Um
dia, eu pude escolher entre uma bicicleta e um avião. Preferi o avião. O porquê
disso, eu nunca vou saber, nem me interessa. É que, quando se tem um coração
que queima, e uma alma que salta, não se pode ter escolhas. Como quando tomo
café e meu coração dispara meia hora depois, minha mão treme, e eu consigo
dizer que estou mesmo diante da vida mais real. Que horas seriam? E não há
respostas. Somente eu... sorrindo, parado, gélido, imbecil, duro, irônico,
daltônico, cético, rude, patético, inóspito, diabético. São 3h30 da manhã. Eu
poderia ser mesmo doce. É que alguma coisa foi lançada contra minha vidraça
hoje de manhã, estilhaçando-a. Uma decepção qualquer lançada descuidadamente
por alguém. Alguém que era doce. Foi como tudo começou. E que espécie de
alegria era aquela que mais parecia uma outra verdade inventada? Sofri um
pequeno corte ontem, de onde escorreu sangue vermelho, deixando minha camisa
branca completamente viva. Estávamos juntos, só os sinos tocando, o anúncio do
trem ininteligível, a mão sobre a mão, por baixo da mochila suja e silenciosa.
Era preciso correr até o meio da floresta sem folhas. Era o meio de abril. Um
grito mudo, sem eco. Num monólogo estranho. E quando, naquele dia eu vi o anjo,
branco como a própria neve (eu, que sempre achei o branco deprimente), dando-me
a mão morna e dizendo-me coisas numa língua morta, pude saber como se sente o
réu na hora da sentença fatal. Era como aquela nota aguda que insistimos em
errar no início daquela primeira frase daquela partitura medieval. Sabíamos
que, para nós, não haveria salvação.
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