Wednesday, 2 February 2011

O problema do mundo



Eu tenho um amigo francês que veio ao Brasil nos visitar e sempre que quer apontar os problemas da França, me diz: “quando eu lembro daquele dia na Pedra do Sal no Rio de Janeiro... todo mundo [preto, branco, pobre e rico] naquela felicidade e cantando a mesma música, fico logo consciente que o medo dos europeus não tem fundamento e é muito perigoso”.
Bem, e eu digo que, nem por isso, a gente tem menos problemas... mas também, nem por isso, a França teria mais problemas.
Fomos convidados, na semana que trabalhei na Alsacea, para um jantar que não estávamos tão motivados a ir. Na verdade, o convite tinha sido digno, e partiu de uma pessoa que gosta de mim verdadeiramente, e de que eu gosto demais: foi ela que me ensinou a fazer uma caponatta e outras delicias sicilianas. Ela própria, uma descendente de sicilianos. O único problema é que o convite era para um sábado à noite. E eu, lembrando imediatamente de uma crônica da Clarice Lispector de que gosto muito (e que já inclui como texto nesse blog com o nome de “O milagre dos pães”), pensei – inclusive traduzi para um amigo meu que estava na obrigação de ir comigo de carro: mas pra quê economizar uma quinta-feira para utilizar um sábado a noite?
Depois de idas e vindas e uma boa desculpa, conseguimos transferir o jantar para uma quarta à noite. Não era quinta-feira, mas mesmo assim estava perfeito! Mesmo se no dia seguinte eu precisaria dar um seminário no Instituto. Mesmo se perderíamos o amistoso Brasil-França... tant pis... seria ótimo estar com ela!
O jantar foi feito pra mim. Todas as especialidades sicilianas mais charmosas e gostosas. Inclusive o vinho! Bebemos, comemos, comemos e comemos. Mas, no meio do jantar, o anfitrião fez uma infeliz observação de que os imigrantes é que elevam os custos da França. Ele nem notou que eu era um imigrante naquele momento. Nem notou que a sua esposa, minha amiga querida, sendo siciliana, também era uma imigrante legitima. Meu amigo, convidado de obrigação, e que me levou de carro, e que é quase comunista (se é que isso existe), não pôde ficar calado. Respondeu à altura. Digo à altura porque sei que não são os imigrantes que constroem a ruína da França (nem da Europa branca). Na verdade, são coisas bem mais perigosas. E tudo que é ingênuo costuma ser, muitas vezes, muito mais perigoso. Imagino que o marido da minha amiga não imaginava o efeito que aquela frase tem sobre inúmeras vidas hoje na França, e em muitos países do mundo. Não obstante, ele vai continuar sem imaginar.
Eu não sei... não sou hipócrita ao ponto de vendar os olhos para todo o racismo que temos hoje no Brasil. Mas acho que o racismo aqui já abriu as feridas que deveria abrir e passamos, agora, por um processo (lento) de cicatrização delas. Ao contrário da Europa que parece começar a sofrer esses problemas de forma mais aguda. Eles foram os colonizadores e agora não sabem lidar com a sua própria (re)colonização.
Bem, mas quem sabe um dia, eles não irão dizer que o donner kebab e o cuscus marroquino são as especialidades da Europa central??? Como nós dizemos, aliás, que a feijoada é nosso prato mais saboroso!

Friday, 28 January 2011

De novo Mulhouse


Estou de volta à Mulhouse. A primeira cidade que morei aqui na França. A cidade que me fez descobrir várias coisas. Que me fez conhecer pessoas que levo comigo para o resto da vida. Faz cinco anos que pisei os pés aqui pela primeira vez. E ainda lembro de dormir cansado depois de chegar do aeroporto de Basel e acordar assustado com o canto dos corvos, que eu jamais tinha visto ao vivo – quanto mais, no parapeito da minha janela. Tudo aqui mudou bastante... como tudo muda, aliás. Acho inclusive que a mudança maior que eu sinto veio exatamente de mim mesmo. Eu mudei. E como eu mudei, a cidade inteira precisou se transformar pra se adequar a essa minha nova vida. E eu respeito esse novo jeito da cidade tanto quanto ela me respeita, e mesmo se enfeita pra me receber. Muitas pessoas não estão mais aqui, outras encontrarei em outros lugares, outras não me reconhecerão, outras eu jamais encontrarei novamente. E tudo isso que deveria ser triste, não me chega dessa forma. Acho que é uma continuação. Mesmo que eu procure aquele gosto, aquele olhar, um jeito, um sorriso, e até aquela palavra, nada disso me faz perder a alegria que sinto em estar aqui de novo. Mesmo esse frio alsaciano de -3°C todas as manhãs. Nem isso.

Wednesday, 3 November 2010

Faixa [de pedestres]


Existe algo no ar de Aracaju que começa a se mostrar... lentamente. Desde que eu fui embora daqui pra estudar em 2002, muita coisa mudou. Entrar novamente na vida de Aracaju me reservou várias surpresas. A mais marcante delas é que os motoristas estão começando a parar [voluntariamente] nas faixas de pedestres. Um dia ouvi de uma aluna que o “pessoal de Aracaju só para na faixa de pedestre na frente do Shopping Jardins”. Achei curioso porque para mim, muitas das mudanças recentes dessa cidade vêm mesmo desse bairro [canto] da cidade. Eu não acho a idéia de ter um bairro copiado ao modelo paulistano algo saudável, mas acho que isso pode sim ter começando a trazer coisas que nós estaríamos longe de conseguir não fosse a chegada de um novo bairro, com pessoas novas, com idéias novas. A cara das pessoas de Aracaju está, portanto e igualmente, mudando bastante. Saber que agora temos o Palácio/Museu Olimpio Campos aberto ao publico e com um café, cinema, e manifestações culturais importantes, copiado talvez aos moldes do Museu da Republica no Rio de Janeiro, parece-me significativo pra uma cidade que começa a se dar conta da faixa de pedestres. E que se diz a melhor qualidade de vida do nordeste [Brasil]... Olho a cara e o jeito das pessoas nos restaurantes, praias, e tudo começa a se transformar. Pra melhor. Bem, o fato é que vejo com alegria e um pouco de preocupação isso tudo. Não sei ao certo se eu me sinto, ou se os aracajuanos se sentem, inseridos nisso tudo. As mudanças parecem muito mais externas do que internas. Mas isso não me priva de ter alegria. Acho que Aracaju é uma cidade que tem muito pra se destacar ainda do resto do pais. E eu gosto desse negocio absurdo de cada cidade brasileira ser tão diferente das outras. Por exemplo, Areia Branca tem um charme que Aracaju não teria jamais. Mas Aracaju tem faixa de pedestres, o que Areia Branca não sonharia jamais.

Friday, 15 October 2010

Como as pessoas mudam?


Uma amiga perdeu a mãe, de repente. A notícia me alcançou por e-mail, agora que a internet deixou o mundo pequeno. Estou longe, mas também aqui, neste lugar sem distância que é o mundo virtual. Mas com tempo veloz, em que uma hora pode ser um pretérito definitivo na disputa pela supremacia dos segundos. Como era antes, quando as notícias levavam meses para chegar e o mundo sobre o qual falavam já tinha inteiro se transmutado, quando as cartas eram sempre um retrato do passado? Agora tudo é agora. E os tempos se confundem de outro modo. Mas se confundem.

Senti tanto o desamparo da minha amiga, porque sei que as mães não deveriam morrer. Na mesma noite sonhei com meus mortos. Meu avô sentava-se com minha avó ao redor da mesa da cozinha como antes e como nunca, porque meu avô sabia que minha avó tinha morrido e eu sabia que meu avô tinha morrido uns 20 anos depois dela. E uma quarta pessoa, desconhecida de todos nós reunidos naquela cozinha, sabia que eu também já tinha morrido, numa outra época que ainda não chegou para mim. Mas comíamos bolinhos de chuva naquela mesa porque compreendíamos que, no curto espaço de existência, neste soluço entre o nascimento e a morte que pertence a cada um de nós, nem os sonhos devem ser desperdiçados. E ali, enquanto eu dormia num quarto de hotel, éramos uma impossibilidade lógica que conversava e que ria.

Quando perdemos alguém que amamos, a dor é tão extravagante que nos come vivos, como se fosse uma daquelas formigas africanas que vemos nos documentários da National Geographic. A dor está lá quando acordamos. Continua lá quando respiramos. Nos espreita do espelho diante do qual escovamos os dentes pela manhã com um braço que pesa uma tonelada. E, quando por um instante nos distraímos, crava seus dentes bem no coração. Neste longo momento depois da perda, sabemos mais dos buracos negros do que os astrônomos porque carregamos um dentro de nós. E arrancamos cada dia nosso do interior de sua boca ávida, com uma força que não temos, para que não nos sugue de dentro para dentro.

Devagar, bem devagar, muito mais devagar do que o mundo lá fora nos exige, o vazio vai virando uma outra coisa. Uma que nos permite viver. Descobrimos que nossos mortos nos habitam, fazem parte de nós, correm em nossas veias fundidos a hemácias e leucócitos. Que suas histórias estão misturadas com as nossas, que seus desejos se deixaram em nós. Que, de certo modo, somos muita gente, multidão. Como também nós seremos em muita gente, deixando, em cada um, ecos de diferentes decibéis e intensidades. Acolhemos então aquele que nos falta de uma forma que nunca mais nos deixará. Como saudade. E como saudade não poderá mais partir.

Somada, a vida humana é um rio barulhento de memórias no leito do tempo. Enquanto outras espécies sabem, sem que ninguém tenha ensinado, que precisam voar para o sul para não sucumbir no inverno ou que devem escalar dezenas de metros de uma árvore em busca da fêmea para se acasalar num momento preciso, nós perpetuamos lembranças. Não é uma intuição prática, no sentido ordinário do termo. Mas é tão vital quanto o acasalamento ou a fuga do inverno.

Assim como a natureza tece mil expedientes para perpetuar seus genes, pertençam eles a um chimpanzé ou a uma mosca; nós, cuja diferença evolutiva nos permitiu inventar a cultura e ser na cultura, perpetuamos a vida através da memória. Já que, para nós, não há vida sem a consciência da vida. Transmitimos as histórias, o conhecimento e os sentimentos dos que se foram, tanto como humanidade quanto como indivíduo, como se fossem parte de um DNA imaterial. Do contrário, seria impossível conviver com o privilégio de nossa espécie, a consciência do fim.

Quem não entende isso acha que, quando doamos as roupas e os objetos de quem amamos e se foi ou deixamos de chorar no cemitério, superamos a perda. Não acredito que exista superação no sentido do esquecimento. O que acontece é que compreendemos que aquela pessoa não estará mais no mundo externo, não pertence mais a ele. Mas também não é mais um vazio que grita como nos primeiros meses, às vezes anos. Ela agora mora no mundo de dentro, vive como memória nossa, em nós. E assim não está mais morta, mas viva de um outro jeito. É o que me ensina João, o homem que divide comigo a aventura arriscada de viver. De luto por sua própria mãe, percebo que a carrega nos olhos quando se maravilha com a novidade do mundo.

Ele me ensina que a vida dos mortos em nós não é possessão nem fantasma. Nem é morte. O mórbido é quando não conseguimos dar um lugar vivo para o morto. Então a memória fica pregada naquele momento de horror e a vida se torna impossível, porque a existência não é água parada, mas rio que corre. Acontece quando alguém, pelos mais variados motivos, não consegue fazer o luto e dar um lugar de saudade para a dor. Quando nos fixamos, num dogma ou numa falta, partes importantes de nós gangrenam. Mas quando os mortos se acomodam em nós como lembrança que muda segundo o viver de quem vive, tudo flui. Se há algo que a vida é em essência é movimento. E o luto é um movimento que reabre as portas para a vida ao romper com a rigidez da morte em nós. Por isso, para o luto não pode haver pressa, porque é grande e largo o gesto que temos de fazer acima e apesar do horror que nos atinge até mesmo em partes que nem sabíamos que existiam.

Quando perdeu a mãe, João compreendeu por completo a poesia que Carlos Drummond de Andrade escreveu para a poeta Ana Cristina Cesar, que se suicidou aos 31 anos atirando-se pela janela do 13° andar. Ela fala da diferença entre falta e ausência. “Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.” É isso. A ausência não é falta. Ou, dito de outro modo, a falta nos come vivos. A ausência, por paradoxal que pareça, nos preenche.

Há um filme de extraordinária beleza sobre a perda, a saudade e o lugar dos mortos em nós. Chama-se “Hanami – Cerejeiras em flor” (Doris Dörrie, 2008 – Alemanha/França). Passou nos cinemas, ainda resiste numa sala ou outra, mas já assisti ao filme na TV por assinatura. Se você encontrar este nome na programação, não deixe de ver. Feche as cortinas, proteja-se do barulho da rua, programe-se para algo especial. O filme conta a história de um homem que não gosta de sair da rotina em sua viagem mais longa e menos previsível. Ele parte em busca de sua mulher e só a encontra quando descobre que ela está dentro dele, nos gestos dele, no corpo e nos olhos que ele empresta a ela. É um filme sobre a morte que nos leva ao único lugar onde vale a pena chegar, à vida.

Quando sofremos uma grande perda ou somos abalroados por uma catástrofe pessoal de outro gênero, as pessoas dizem, para nos consolar e com as melhores intenções, que tudo passa. Acho que, na verdade, nada passa. A frase mais precisa seria que tudo muda. Também nós que aqui estamos como matéria um dia seremos apenas eco. Tanto pelas nossas células que alimentam e se agregam a outros seres vivos a partir da decomposição de nosso corpo como pelas histórias que transmitimos e permanecem além de nós. Aquela que fui ontem já mudou, a ruga que há um ano não existia agora é visível na pálpebra direita, minha percepção do mundo não é mais exatamente a mesma do mês passado, alterada por novas experiências que me alargaram. De certo modo, nascemos e morremos tantas vezes até o fim da vida. E é este o movimento que importa.

Queria dizer isso à amiga que perdeu a mãe de repente. Mas agora minha amiga ouve, mas não pode escutar. A dor a está comendo viva como as formigas africanas. Tudo é horror e absoluto. Mas com o tempo, um período só dela e que não pode ser determinado em parte alguma nem por ninguém, minha amiga vai começar a perceber que a mãe é uma ausência presente no formato das suas unhas, num certo jeito de mexer a cabeça quando fala, na tonalidade rara dos olhos. Está nas palavras e nas histórias que conversam dentro dela, na mitologia familiar que se perpetua, nos sons da memória. E então poderá reencontrar a mãe dentro dela. E levá-la para passear.

E, num dia que sempre chega, viverão as duas como história, como cacos de lembranças encaixados em diferentes rearranjos de vitrais, na vida dos que vieram depois. É pouco, talvez. É tudo o que temos.

Eliane Brum – Revista Epoca

Sunday, 5 September 2010

About happiness


Outro dia eu acordei diferente. Dei um salto da cama e começava assim o meu dia: com o sol nascendo as 5h30 da manhã aqui em Aracaju. Parece que entrei numa fase de bom jeito. Depois do aniversario, quando não se morre e nem se envelhece do dia pra noite, parece que se sobrevive. E esse sobreviver pode vir mesmo de bom jeito. Como se fosse a nossa última chance. E então a gente corre atrás da alegria, e fica com ela. Pra sempre? Não sei, só sei que estou nessa fase de felicidade inexplicável, que parece mesmo um toque de algo divino. E estou aproveitando!